Opinião
Mestre Aur�lio, o senhor das palavras
Ao falecer em 1989, aos 78 anos de idade, na cidade do Rio de Janeiro, o dicionarista alagoano, nascido no antigo povoado litorâneo de Passo de Camaragibe (Al), Aurélio Buarque de Holanda Ferreira - foram lembradas suas legendárias palavras: ? Fazer dicionários é como caçar borboletas. As palavras voam, é preciso caçá-las no ar ?. Morria o Acadêmico, imortal das letras, o professor renomado de português e literatura, o autor de um dos maiores sucessos da história editorial do Brasil: o dicionário Aurélio. Seu nome sempre representou para os brasileiros - sinônimo e a própria expressão de sua grande obra. O histórico curso de sua vida foi marcado pela visão marítima de suas origens, pela intensa preocupação com a língua portuguesa e pelo desmedido amor pelas palavras. Diplomado em direito pela velha Faculdade de Direito do Recife, em 1936, foi no campo da crítica literária, da lexicografia, da filologia que expandiu o seu talento e, se tornou conhecido nacional e internacionalmente. Ingressou na Academia Brasileira de Letras em dezembro de 1961, ocupando a cadeira de n. 30. O memorável discurso de recepção, proferido pelo imortal escritor Rodrigo Octavio Filho, exaltou sua figura de relevo no cenário da cultura brasileira, a curiosidade indomável e permanente de sua personalidade, fonte criadora de uma majestosa irradiação intelectual. O festejado escritor maranhense Josué Montello, ex-presidente da Academia Brasileira de Letras, o chamava de ?grande Aurélio? e dizia que ele sabia juntar bem as palavras, além de conhecê-las como ninguém. Glorificava seu talento literário e a grandeza de sua expressão humana. O nosso conterrâneo Lêdo Ivo, poeta e escritor consagrado, igualmente pertencente a Academia Brasileira de Letras, disse em monumental trabalho que ele amava as palavras. Amava-as como se elas fossem mulheres ? e mulheres nuas, que se levantavam de suas camas imaginárias, vestiam-se de luz e de sonhos, caminhavam ao seu encontro, distanciavam-se, juntavam-se e bailavam. E, cantavam ardentemente. Em sentença luminosa, fez uma proclamação ? Aurélio Buarque de Holanda Ferreira não nasceu para fazer um dicionário, e sim para ser um dicionário. Para ser o Aurélio, ?uma galáxia de palavras?. Na eternidade, o mestre Aurélio continua com alma de dicionarista, quando Deus precisa falar ao coração dos homens, o consulta, para fazer das palavras, estrelas de seus misteriosos desígnios.