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Opinião

Quem quer a guerra?

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JOSÉ MEDEIROS q Guerras, ambições, tronos, armadas, coroas: simples brinquedos de crianças grandes. A guerra é uma suprema idiotice. (Leon Tolstoi) Creio que tudo que se poderá dizer sobre a guerra contra o Iraque já foi dito, em gradações de cores e análises. Por que persistir nessa tecla? Esse confronto ? como todas as guerras ? agride um direito fundamental da pessoa humana: o direito à vida e à esperança. Joga o ?eu? espiritual de cada um contra o mundo material das ambições desmedidas de outrem. É uma das versões negativas do tempo em que vivemos. É possível uma solução pacífica para a crise iraquiana? Assim esperam as pessoas de boa-vontade, no mundo inteiro, contrárias a uma ação militar desagregadora. A guerra é um câncer cujas metástases (disseminações) podem espalhar-se por outras regiões do planeta; é sempre uma derrota para a humanidade. Eu estava numa universidade americana realizando estágio docente, logo após a guerra do Vietnã. O povo americano chorava seus mortos e recebia os vitoriosos recém-chegados com palmas, flores e desfiles. Mas havia resíduos que estabeleciam linhas de discussão: os mutilados, principalmente os mutilados da esfera psicológica e psiquiátrica. As síndromes de pânico, neuroses, psicoses, angústias e depressões eram motivos de preocupação. Agora, inventaram termos médicos para consolar a consciência dos soldados. São as chamadas ações de guerra ?exangues?, isto é, sem sangue, limpas. Quem puxa o gatilho de um lança-foguetes, à distância de 10 quilômetros do alvo, não vê mortos, feridos ou atingidos. Não salpica sangue na farda ou no boné. Não tem contatos físicos ou visão das conseqüências. Será isso suficiente para acalmar as consciências? Civilização, globalização, integração das economias e das sociedades dos vários países, leis internacionais, comunicação, são meras palavras vãs. Acabo de reler um texto do escritor angolano Dario de Melo, que viveu as cruezas de uma guerra em seu país. De sua obra ?Quitubo, a terra do arco-íris?, retirou um pequeno trecho: ?Primeiro os aviões vinham de lá. As bombas, de todo lado. A guerra vinha a voar e as bombas a cair. Em meio ao tumulto de corpos mutilados, avistei uma criança esfarrapada, de mãos queimadas. O menino vinha fugindo. Recuando com o povo. O pai, a mãe, os irmãos, tinham ficado. Faz tempo. A morte lhes atrasou. Enquanto corria, o menino pensava numa estória que lhe haviam contado, do caminho do Quitubo. Chegaria lá? Qual seria o seu destino sem os pais, parentes e aderentes. Só lhe restava caminhar... Onde ficava Quitubo? O povo se empurrava em procissão?. Quanto vale uma vida humana? Alguns vinténs, dólares, libras esterlinas? Pergunte às mães que perderam filhos numa guerra ou na violência do cotidiano. Elas saberão a resposta, resposta de dor e de sofrimento. Dariam muito de suas vidas para evitar esses momentos cruéis, provocados por esse absurdo destruidor. O sentimento que domina a maioria das pessoas não é somente de compaixão, mas de protesto, de revolta, de indignação. É necessário dizer não à guerra. (q) É MÉDICO E EX-SECRETÁRIO DE EDUCAÇÃO E DE SAÚDE

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