Opinião
D. Pedro e os nossos 200 anos
Afastado de Maceió nesses dias, tomo conhecimento das novas estátuas de figuras ilustres das Alagoas, através de fotografias enviadas, via Whatsapp, dos amigos das caminhadas que as postaram abraçados a Mestre Aurélio, Ledo Ivo e Graciliano Ramos. Excelente providência da autoridade municipal ao homenagear tão representativos conterrâneos. E, por uma coincidência qualquer, os 200 anos de Maceió coincidem com os 124 anos de morte de D. Pedro, que por aqui esteve em 1859 e cuja visita às Alagoas foi tão bem descrita pelo imortal Ledo Ivo. Em tempos de política de muito baixo nível na República, quando um processo de impeachment contra a presidente da República é aberto sob um tiroteio de acusações de pedaladas fiscais, de uso de mentiras por ambas as partes, de chantagens e de benefícios pessoais com contas no exterior, a evocação a D. Pedro tem seu cabimento. O defenestrado D. Pedro era um homem dos mais austeros e poderia servir de exemplo ainda hoje de como conduzir a coisa pública; nos 48 anos que duraram seu império, de 1841 a 1889, evitou que aumentassem sua dotação. Com esse dinheiro custeava sua família e artistas brasileiros no exterior. Quando viajava oficialmente para o exterior, sua comitiva não tinha mais do que quatro ou cinco pessoas. Vestia-se modestamente e sua moradia no palácio imperial, em São Cristóvão, era franciscana. Ao ser deposto pelos militares, recusou o dinheiro que lhe ofereceram para se instalar em Paris. Ao deixar o trono, o fez com a mesma austeridade e dignidade que marcaram sua vida e sua gestão. A abertura do processo de impeachment contra a presidente da República abre uma crise dentro da crise e ocorre quando o País enfrenta uma das mais dramáticas situações econômicas dos últimos trinta anos, com recessão e ameaças concretas de depressão. Nos gabinetes de Brasília, o que se discute, antes dos interesses maiores da Nação, é a sobrevivência de personagens que deveriam estar liderando um processo para que o Brasil pudesse sair da grave crise com um sacrifício menor para sua população. Contudo, a gravíssima crise nacional adquire agora o que o termo grego ?Krísis? significava para Hipócrates e Galeno: o momento decisivo no curso de uma doença, a partir do qual o paciente ou falece ou recupera a saúde. Não existem razões para se esperar que o exemplo de D. Pedro possa inspirar nenhum dos envolvidos nesse contencioso. Mas, que pelo menos, ao final desse processo, que tramita sob o jugo constitucional, se abra alguma luz no fim do túnel.