Opinião
Os anjos n�o t�m pecado!
Quando uma coletividade inteira se sente igualmente tomada pela mesma dor é porque algo incomum aconteceu. É tão verdade que a cidade de Palmeira dos Índios parou neste final de semana, emocionada pela perda do seu grande líder religioso, monsenhor Odilon Amador, há mais de 50 anos. Morto subitamente, pegou a todos de surpresa, aprofundando ainda mais a chaga aberta nos corações da sua gente. Como padre, destacou-se pela profunda inteligência, cultura e humildade. Pelo espírito de doação e respeito, indistintamente por ricos e pobres que por ele nutriam grande apreço. Austero nas suas decisões, alegria incontida, um guia espiritual de todos com seu jeito simples ser. Para ele, confessionário era olho no olho, diálogo transparente, nada de pieguismo e penitências dolorosas. Pensei em não escrever essa coluna temendo não ser traído pela emoção, porque é o meu tio, um segundo pai e muito presente na minha formação jovem, adolescente. Fomos amigos e confidentes sem barreiras. Não era perfeito como qualquer ser humano, afirmou o Bispo D. Dulcênio na sua homilia. Mas era especial, um pastor que com sabedoria tinha o dom de aliviar a angústia dos sofredores. Em sua vida pessoal, superou momentos tão dolorosos que só os fortes de muita fé são capazes de vencê-los. Ao lado do seu corpo, por muitas horas, ouvi depoimentos que me emocionaram cada vez mais. ?Fiquei órfão?, disse alguém. Sim, milhares de almas ficaram órfãs do seu pai espiritual. Li do jornalista e amigo Pedro Oliveira (vejam no seu Blog), outros que retratam exatamente a personalidade democrática do monsenhor, leve, sensível às dificuldades de todos. Pedro e Meg, sua esposa, perguntaram ao padre se não ia confessar sua filha Maíra para receber a primeira eucaristia: ?Os anjos não têm pecado?. Pela leveza da resposta, escolhi como título para este artigo. Segundo Frei Beto, ?Um padre na verdadeira palavra de Deus?. Ao partir, aos 87 anos vividos, não deixa simplesmente um legado espiritual. Fica um trabalho social indiscutível junto à comunidade e a grande transformação física da igreja matriz, hoje a Catedral Diocesana; o respeito dos que de perto ou a distância acompanharam sua inspiradora obra religiosa. Desabafou o piloto Airton Senna após vencer uma corrida difícil: ?Deus é forte, Ele é grande, quando Ele quer, não tem quem não queira?. Deus quis e todos quiseram que Odilon seja padre para sempre.