Opinião
Um belo exemplo
Meus padrinhos, Ivanildo e Moyza, caminham para os seus cinquenta e quatro anos de casados. Num mundo em que as relações afetivas estão cada vez mais fluidas e a cultura do descartável parece minar até mesmo o que há de mais sagrado no seio da sociedade, que é a família, eles se constituem num belo exemplo de que é possível acreditar no amor que vence as barreiras do tempo e sobrevive, altaneiro, alimentado da sua própria existência. Um amor que se reinventa com o passar dos anos, que descobre novas formas de manter acesa a chama da sua vitalidade e que encontra, na maturidade alcançada, a justificativa para seguir adiante, apesar dos pesares. Desde criança eu os vejo unidos, vivendo um para o outro, verdadeiras almas gêmeas que se reencontraram nesta encarnação, como diriam os meus amigos kardecistas. Na simplicidade da sua condição ? ele servidor público federal, ela ?de prendas domésticas? ? souberam aproveitar o que de melhor a vida lhes ofereceu, viajando muito, cultivando amizades e cuidando da bela família que constituíram, antes formada pela única filha e agora adornada pelas duas netas, que são a razão dos seus encantos da maturidade. Em meio a remédios e consultas médicas (a velhice cobra o seu preço!), frequentam a academia e curtem a programação da tevê, sempre um em companhia do outro, carne e unha, corda e caçamba. Meu padrinho ainda toma o seu velho uísque diário, minha madrinha ainda faz o melhor pavê que eu já degustei até hoje. Lúcidos e independentes, seguem estrada afora de mãos dadas e corações em sintonia, com a serenidade própria de quem possui a certeza do dever bem cumprido e a consciência limpa de quem foi fiel a si mesmo, sem obscuridades nem tergiversações. Certamente se depararam com vicissitudes, pois nenhuma caminhada a dois é de todo isenta de sobressaltos. Mas venceram as procelas, pés firmes na base sólida em que assentaram os seus sonhos e fé absoluta na proteção de Deus e na intercessão amorosa de Nossa Senhora da Conceição, bênçãos que nunca faltaram nos mais de oitenta anos de idade de cada um. Ainda se pode ver a cumplicidade no olhar de ambos, a delicadeza com que ele segura no braço dela, o carinho com que ela afaga a cabeça dele. Aproveitam o ocaso da vida de maneira serena e tranquila, plena de significado. Visito-os regularmente e sempre saio da sua casa com a certeza de que ali o amor realmente fez morada, repleto de companheirismo, solidariedade e respeito mútuos. Um amor eterno, desses que todos gostaríamos de experimentar.