Opinião
Esdras e o mapa de todos n�s
Quem acaba de agitar o mundo literário é o jornalista Esdras Gomes, um decano de alma efervescente. Demorou, mas lançou logo duas preciosidades: ?Pequeno Dicionário de Nordestês ? o linguajar matuto passado a limpo? e ?Podes Crer, o cumpade me contô?. Gerado no interior e curtido no fundo da noite das redações, ele chega com o fervor típico de repórter, quando entrega ao seu editor uma bela história colhida das ruas. Depois de tantas pautas, talvez seja para ele o mais importante esforço de reportagem. Esdras é como um talismã, meticulosamente desenhado por uma histórica escola de autodidatas da imprensa, e que ainda deixa ?a migué? muita gente promissora com canudo no ?subaco?. O ?Pequeno?... E desde quando se qualifica documento pelo seu tamanho? O que há no ?Nordestês? é de uma riqueza imensurável. E não me refiro aos valiosos anos dedicados por Esdras à pesquisa, arrebanhando centenas de verbetes. Celebro o significado do seu esforço. A tradução do linguajar se constitui num auxílio luxuoso para montagem de um complexo e gigantesco quebra-cabeça, que se pode denominar de mapa da nossa própria história. Quando o professor José Maria Tenório destaca a ?riqueza incalculável da fala do povo?, lembro-me de outro mestre, o professor Luiz Humberto, da UnB. Ao refletir sobre a regionalização da produção cultural, ele apela para preservação do fazer, do pensar e do agir regionalmente. Ao mesmo tempo em que as ferramentas disponíveis pelas novas tecnologias da comunicação permitem um mundo sem fronteiras e a integração dos povos, é essencial preservar o local. Enquanto ser humano, precisamos ter consciência de nossas origens. O desenvolvimento depende da preservação das diferenças, pois estas fomentam a integração e o progresso de maneira sustentável. Esdras contribui na montagem do mapa a que me referi, ordenando os verbetes. Por eles, viaja-se na história do povo nordestino e suas peculiaridades. Da mesma forma ocorre com o ?Podes Crer?, uma seleção de causos que brotaram do meio popular. Pode até aparentar algo sem nexo para alguns, mas, em verdade, são elos que cooperam na explicação de quem somos e de onde viemos. No caso do ?Nordestês?, Esdras me atribuiu a tarefa de ocupar a orelha da obra. Foi tão honroso o convite que assumi a missão com ?abaferro?. Pela importância da publicação, que desvenda dúvidas a ?locé?, senti-me meio ?abagão?. Com ?papé e pincé? à mão, não emporcalhei o dedo no ?titêro?.