Opinião
O Natal de Duda e Tonha
Duda e Tonha vivem juntos há oito anos e se conheceram na rua, ainda adolescentes. Nunca sentaram numa banca de escola, são analfabetos de carteirinha e sobrevivem trabalhando juntos dia após dia como lavadores e cuidadores de carro em um bairro nobre de Maceió. Habitam um barraco numa dessas grotas no lado alto da cidade, têm dois filhos com quatro e dois anos que ficam sob os cuidados da avó alcoólatra ou de algum vizinho quando saem, inclusive aos domingos, para a lida diária. Negros, esqueléticos, revelam expressão sofrida comum aos excluídos de uma sociedade egoísta, preconceituosa e discriminatória. São apenas mais uma entre milhões de famílias brasileiras vítimas da ausência de políticas públicas e sociais; vítimas da institucionalização da mentira e da corrupção; vítimas, assim como toda a classe trabalhadora, de um sistema político apodrecido, um parlamento totalmente desacreditado comprometido com a sujeira que impregnou os bastidores das instituições indiscriminadamente. Neste Natal, seremos todos presas do governo desgovernado que sequer tem autoridade para deter a bagunça que levou a economia à completa desordem, colocando seriamente em risco a própria estabilidade democrática. Duda e Tonha reagem com revolta quando comentamos sobre as comemorações natalinas, o colorido das luzes na cidade, nos prédios, nas casas, as canções que tocam fundo no coração de tanta gente, o sentimento de solidariedade e de confraternização entre amigos e familiares, nada os sensibiliza. A noite de Natal é igual a todas as outras. A rotina do casal e de seus dois filhos é a mesma de todos os dias. O barraco continua escuro, as crianças chorando, muitas vezes doentes, secreção escorrendo pelas narinas. A única luz que ilumina a casa é o fogo dos gravetos que aquece o café para tomarem com pão, salsicha ou biscoito. O leite dos meninos nem todos os dias é possível comprar com o dinheirinho arrecadado com o suor do trabalho em dupla do casal. Acreditam em Deus, sabem que no 25 de dezembro se comemora o nascimento de Jesus Cristo e ela é devota de Nossa Senhora das Graças. Às vezes, quando a dor da alma é quase insuportável, até reza uma ?armaria? pedindo para que a santa lhes ajude no sofrimento cotidiano. Quem mais conversa é Tonha, enquanto o marido, meio desconfiado, só observa e revela um grande sonho: ganhar uma camisa do ?Framengo?. Quem sabe, Duda, esse desejo não se realiza neste Natal?