Opinião
Minhas lembran�as do Natal
A noite do Natal encerra encantos que me reportam à infância, aos meus sete anos. Eu olhava os cartões de Natal, tão lindos! Dourados, coloridos, eles mostravam paisagens de lugares distantes, onde fazia um frio que eu desconhecia, então. O presépio, crianças, trenós, pinheiros, a neve! Eu queria estar ali. O que era a neve? Algo frio, fofo, muito bom. Devia ser como um imenso sorvete, uma delícia! Via-me a comer montes de neve! E eu esperava com ansiedade o presente do Bom Velhinho, afinal, minha carta já se achava sobre os sapatos aos pés da cama. Nossa casa ficava festiva, vinha da cozinha um cheiro agradável das tortas de maçãs, que mamãe fazia tão bem, do peru assado, arrumado com farofa de miúdos. Na mesa, as nozes para partir, o queijo do reino para fatiar. Papai era só animação, no seu papel de pater famílias, não deixava ninguém sossegado, supervisionava as luzes pisca-pisca da árvore, as músicas de natal na vitrola. Vestimos, eu, meu irmão e minha irmã, as roupas novas do final de ano, feitas com capricho por mamãe. Eu detestava o vestido de organdi a me espetar! Daí a pouco, a casa ficava cheia de gente. Papai chamava por mamãe, que correra para se trocar, coitadinha, sempre atrasada pelos afazeres. Chegavam as queridas vovós de cabelos brancos, a mãe do papai e a mãe da mamãe, que se davam muito bem, com seus vestidos de flores lilases, pois eram viúvas. Tratadas com deferência, ocupavam os lugares centrais da sala. Eu punha um olhar comprido para minha avó materna, mas claro que nesse dia de festa não haveria ensejo para as histórias da Carochinha, que ela contava como ninguém. As duas tias solteiras, irmãs de mamãe, nossas boas fadas, vieram com presentes. E, vindos de longe, apareceram os tios e primos para completar a festa, com suas vozes alegres. Entre conversas que exprimiam o prazer do encontro, da confraternização, entre músicas, fatias de peru e mais gostosuras, a noite se ia. Mamãe nos mandou trocar a roupa, que alívio, e vestir camisola, pijama, eram horas de menino dormir. Porém, antes de deitar, fomos pedir a bênção das avós, dos tios, uma fila interminável de parentes, ai que cansaço, que sono! Enfim, chegamos a eles, papai e mamãe: ?Bênção, papai do coração! Bênção, mamãe do coração?, era assim que dizíamos. E agora, cama! Impossível ficar acordados à espera do Papai Noel, dormimos profundamente. No outro dia, soubemos admirados, que ele viera, conversara com nossos pais, sentara-se e até tomara guaraná! Nosso quarto estava todo enfeitado de brinquedos, pendurados por cordões até o teto... e havia presentes nos nossos sapatos. Eu ganhara livros de Monteiro Lobato, caixas de lápis de cor, caderno de desenho, adorei de verdade. Meus irmãos examinavam seus presentes, encantados. Papai e mamãe sorriam felizes com a nossa alegria, eles nos olhavam com ternura, juntos ali, na porta do nosso quarto. Não precisava neve, nem trenós, nem pinheiros, eles bastavam nos cartões. Porque tínhamos tudo, tínhamos a essência do Feliz Natal!