Opinião
As cerejeiras em flor
Estamos todos diante de um abismo, que é a imprevisibilidade da vida. O destino sempre nos surpreende, para o bem e para o mal. Daí porque é revigorante rever valores e enxergar o mundo com um novo olhar, praticando aquilo que o filósofo Epicuro, antes de Cristo, chamou de ?filosofia da serenidade?: prestar atenção nos prazeres calmos, na alegria serena que resulta da aceitação das nossas limitações, da nossa capacidade de superar as angústias e de vencer os medos que nos assombram ? principalmente o medo do fim, da extinção do nosso arcabouço físico. ?Tudo no mundo se acaba, tudo enfada e tudo cansa?, versejava Mané Mingó, repentista de Anadia. O que não se finda é somente o que há verdadeiro nos nossos sentimentos. O budismo nos ensina que a sabedoria consiste em valorizar o aqui e o agora. O passado já ficou para trás, e nos serve apenas de reflexão e de aprendizado; não pode mais ser modificado. O futuro ainda não chegou, e nós nem sabemos se estaremos nele, já que a tirana morte pode nos colher antes. O que nos compete vivenciar é o hoje, e não por acaso ele é chamado de presente. Os japoneses, sempre sábios, celebram a florada das cerejeiras, entre março e abril de cada ano, para rememorarem a natureza efêmera das coisas ? inclusive da vida, que é extraordinária, delicada, linda e passageira. Por isso mesmo precisa ser reverenciada no agora, que logo passa. Ainda ontem eu era um menino, correndo descalço às margens do Mundaú; hoje alguns dos meus amigos de infância são avós, e muitos de nós já enterramos as nossas mães, aproximando-nos do nosso próprio túmulo. Envelhecemos todos, veloz e inexoravelmente. Cada vez mais aprecio o silêncio em detrimento do alarido, a calma em vez da agitação. Tenho preferido ouvir a falar, convencido de que ainda há muita coisa a ser aprendida, muitas lições a serem escutadas. Diante da imensidão do mar da Pajuçara, em Maceió, da singeleza das flores do jardim de dona Tetê, em Murici, ou do verde em várias tonalidades da zona rural do nosso estado, o que fazer senão calar e agradecer a Deus por tamanha beleza? Não cabem palavras quando o que a vida nos pede é apenas contemplação. Isso os idosos nos ensinam com primazia, e eu sempre os observo no Lar Francisco de Assis, na Serraria: sentados nos bancos do pátio aprazível, olham as árvores, ouvem os pássaros, erguem os olhos para o céu. Sem pressa, sem agonia, sem agitação, a sabedoria já fez morada em seus corações. Que ela também habite os nossos, no ano novo que está bem pertinho de nós.