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Pelas linhas tortas de Graciliano

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Nesses dias de final de ano, que mexem de formas diversas com a maioria das pessoas, a estátua de Graciliano, afixada na Ponta Verde,cabisbaixo, fumando seu cigarro Selma, remete-me ao conto ? A última noite de Natal? extraído de seu livro ?Linhas Tortas? que é o testemunho de um homem de sessenta anos, sozinho no mundo nessa época. Ali, mestre Graça descreve as angústias de um homem vagando, solitário, cujas recordações da mulher,que se fora, dos filhos e dos netos, dispersos pelo mundo,e inalcançáveis, o fazem vislumbrar momentaneamente a igreja que freqüentava no Natal.O homem tem consciência de que é um ?tresvario? , mas não renega as recordações.As cultiva, e chega a ter a visão de um jovem casal em uma igreja a começar uma nova vida. Guardo as minhas recordações como tesouros inegociáveis:minha mãe a dirigir o culto natalino,para o qual preparava-se durante todo o ano, já que a Bíblia, que lia diariamente, era o sustentáculo para enfrentar as suas atribulações. Felizmente,hoje, a Ivanelza mantêm o culto natalino em um ambiente semelhante: revigorado pelos filhos, noras, genro e netos. Minha mãe era muito solidária: em suas orações sempre implorava pelos menos afortunados, aqueles que nunca viu ou conheceu, e naquela hora estariam enfrentando dificuldades, daí, acredito, sua felicidade era incompleta.Algo como uma senhora idosa, magrinha e pequena, que todos os anos aparece no hospital nessa época e espera pacientemente. Ela fez seu tratamento de um tumor maligno uterino há muitos anos, está bem, mas insiste em trazer seu modesto presente:um queijo de coalho.Traz também um outro de valor inestimável: todas as vezes que faz suas orações,nelas, inclui esse refratário, pouco crédulo pecador, minha família e todos os demais médicos da Instituição onde trabalho.Sua generosidade e gratidão pelo que não deve,justificam todos os nossos esforços. Some-se o estresse que nos acomete nessa época do ano, às angústias, atualmente muito exacerbadas :chega-nos às mãos, a cada dia mais e mais, o desespero de muitos pacientes humildes e graves, que pela crise econômica deixarão de ser atendidos, piorando imensamente um cenário da saúde pública, já costumeiramente dramático. Não fumo o cigarro Selma de Graciliano e também não acredito em milagres:sei apenas que não estou solitário nessa angustiante condição de compartilhar com tanta gente sofrendo injustificadamente, muito mais do que deveria ;como outros colegas médicos, estamos cabisbaixos como o mestre Graça.Como ter paz e alegria diante dessa situação?Quando e como os dias melhores virão?

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