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Apenas um passo a mais

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O caos instalado na saúde pública carioca chama mais atenção da mídia, mas não difere da situação dos demais estados. É uma dolorosa lembrança de como a medicina é complexa e cara. Foi isso que os médicos brasileiros quiseram alertar quando da chegada de milhares de cubanos. Não que eles não fossem ajudar, houve um incremento de 19% nos atendimentos do SUS com sua chegada, é que o buraco era mais em baixo. Cidades remotas sem médico são apenas a ponta do iceberg. Só agora, com o fechamento de hospitais e emergências, a mensagem parece ter feito sentido. Se tivermos sorte, a queda do véu também permitirá que se enxergue outro problema relacionado ao programa, a questão dos direitos humanos. Segundo o jornal The New York Times, a Coreia do Norte também mantém um programa de envio de trabalhadores para países estrangeiros. Os destinos são ditaduras da África e Oriente Médio, onde os norte-coreanos trabalham 14 horas por dia de domingo a domingo. Os campos de trabalho são fechados (com cerca elétrica) e não é possível desistir antes do tempo previsto. Ao fim de 3 anos, descontando o que se gastou com o sustento mínimo, a soma que o trabalhador leva para casa é, em média, 160 dólares. Três anos de trabalho medieval rendem 600 reais. Enquanto isso, a parte que cabe ao regime totaliza por volta de 2 bilhões de reais por ano. A situação dos cubanos do Mais Médicos é, obviamente, muito melhor. Eles recebem mais de 3 mil reais, cumprem jornadas de 8 horas e não vivem cercados. Porém, eles não têm os mesmos direitos trabalhistas de que gozam os brasileiros, como FGTS, férias e 13º, são vigiados no país por ?tutores? e os que desistiram precisaram empreender uma espécie de fuga. Os que trouxeram a família foram intimidados a mandar os parentes de volta. São duas situações bastante distintas, mas como vergonhosas semelhanças. Flexibilizar um pouco nossa moral em prol de uma causa maior, a saúde dos pobres que vivem nos confins do Brasil, foi a decisão que tomamos como nação. Em um país em crise, com extrema falta de recursos, mas que necessita desesperadamente reformar e ampliar sua infraestrutura, uma excelente opção para construir estradas, escolas e hospitais seria fechar um contrato com Pyongyang, nos moldes descritos acima. É barato, eficaz e o problema humanitário seria apenas um segundo passo mais ousado, pois o primeiro, mais tímido, nós já demos.

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