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Opinião

De sonho e de p�

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Fui criado convivendo com idosos. Minha avó Izarele morava conosco, e era comum ela receber em nossa casa a visita de queridas amigas suas de infância, tais como Francisquinha Maciel, Olívia Granja, Aída Crisóstomo e Mariêta Lyra. Eu, que não largava a barra da sua saia, ficava zanzando ali por perto, escutando com atenção aquela prosa animada e saudosista, aprendendo com a experiência daquelas senhoras septuagenárias e me encantando com a riqueza das suas vidas normais, sem feitos extraordinários, mas plenas de conquistas pessoais. Contagiavam-me aquelas gargalhadas sonoras, encantava-me a emoção que, muitas vezes, fazia brotar lágrimas daqueles seus olhos vivazes. Em meio ao café fumegante e às bolachas quentinhas, as lembranças das alegres velhinhas surgiam aos borbotões, e eu me sentia como se estivesse assistindo a um filme épico de muitos cenários. ?No tempo em que eu era gente...? ? era assim que vovó, invariavelmente, começava a falar de si própria. E com ela eu fui aprendendo que o idoso é alguém que tem muito a compartilhar com as gerações que lhe sucederam, muitas lições a ensinar para os filhos e netos que, às vezes, não lhes dão a mínima atenção. Quanto há de riqueza nas experiências por eles vividas, na trajetória que percorreram até agora, nas ilusões deixadas para trás, na realidade que se impôs, muita vez, de forma dura e impiedosa... Cada ruga marca uma lembrança, cada sulco no rosto nos conta uma história feita de sonho e de pó. O olhar de um idoso traz a sabedoria de quem já aprendeu que tudo passa, de quem pode cantar com Renato Teixeira: ?ando devagar porque já tive pressa, e guardo esse sorriso porque já chorei demais?. Devíamos prestar mais atenção no que nos dizem os que possuem o ?saber de experiência feito? de que nos falava Camões. Devíamos olhar no fundo dos seus olhos cansados, buscando o brilho que ainda escapa das retinas que tanto presenciaram ao longo do caminho percorrido. De minha parte, todas as vezes em que fiz isso pude descobrir verdadeiros tesouros escondidos entre silêncios e solidões, e invariavelmente surpreendi-me com as batalhas das suas vidas. Quanto eu aprendi nas incontáveis conversas que tive com Bráulio Silva, Carlos Moliterno, Jorge Cooper, Ib Gatto! Ao final e ao cabo, cada idoso que nos cruza a estrada dá-nos uma oportunidade única de pensarmos no futuro que nos aguarda, no amanhã que já acena em nossa direção. Que tenhamos, todos nós, ouvidos para escutar as lições e olhos para ver os exemplos que tanto haverão de nos servir um dia.

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