Opinião
O r�veillon dos miser�veis
Em meio à multidão concentrada nos espaços mais nobres da cidade, eles se misturam ao povo de todas as classes e níveis sociais. Na efusão das comemorações pela virada do novo ano, os sentimentos se fundem no transbordar de alegria, felicidade momentânea e esperança de que daqui para frente tudo poderá ser bem melhor. O espocar do champanhe saltando a rolha se confunde com o clique da latinha da pior cachaça ou a cheirada com gosto na boca da garrafa de cola. Cada um saúda o instante mágico da passagem de ano, com os prazeres que a vida lhe oferece. Meia-noite a explosão do espetáculo das cirandas de fogos acelera mais ainda o palpitar de tantos corações ali concentrados. Em meio ao colorido de looks elegantes com predominância para branco, amarelo e vermelho, estão igualmente os que se cobrem com molambos esfarrapados. São moradores de rua com o direito democrático de serem felizes na virada do ano-novo como todos os que indistintamente se confraternizam. Abraços e beijos! Corpos sedutoramente perfumados se tocam, apertam-se, juram amor para sempre. Mãos estendidas para o alto suplicam aos céus dinheiro, carro novo, vida nova, vida farta! Ao lado, eles também comemoram, externam seus sonhos se abraçam exalando o odor de suas roupas sujas, suadas de muitos dias sem lavar. Ninguém os vê! Entre tantas promessas de solidariedade ninguém lhes deseja pelo menos uma boa noite. O espaço deles foi invadido na orla, nas praças. É ali que ?moram?, trabalham no dia a dia catando latinhas nas lixeiras e quando são notados há quem lhes expresse um ar de desprezo. Ao erguer as mãos para o alto na comemoração do novo ano, o que pedem aos anjos os infelizes sem-teto, sem qualquer expectativa, sem qualquer chance de viver melhor? Um pão pra comer, um barraco para abrigar sua família, talvez, um trabalho digno como qualquer ser humano? O que pensa uma família de miseráveis naquele momento em que todos festivamente cheirosos e bem vestidos comemoram ao seu lado a chegada do ano-novo? No País da ?sofrência? nada vai mudar para eles, como também não mudará para outros milhões de brasileiros que têm casa, emprego e comida na mesa. 2016, que acaba de nos abrir as portas para uma nova caminhada, será como tantos outros anos apenas um tempo de renovar a esperança de que tenhamos um amanhã um pouco mais feliz que hoje.