Opinião
A Olimp�ada e a crise
Na virada do ano um fato de extrema importância não mereceu o destaque devido: entramos na era olímpica. É algo que há muito tempo congrega povos e entrelaça pessoas de variadas culturas, algo que une nações e, por vezes, pode significar a redenção de um povo. Adentramos na era olímpica sem nos darmos conta dela. Não houve nada que aludisse ao evento, ninguém se pronunciou, não houve fogos nem monumentos sendo exibidos. Estamos a poucos meses de mais uma Olimpíada, desta feita no Brasil, a primeira da América do Sul. Era normal que estivéssemos todos vivendo agora um momento de ufanismo: os olhos do planeta voltados para nós, atletas circulando com seus uniformes em verde e amarelo, especulações sendo feitas sobre a quebra de recordes e número de medalhas, e as expectativas que o evento traria do ponto de vista econômico. Contudo, não se vê nada disso. Pelo contrário. O Rio de Janeiro, que sediará os Jogos, vive um momento sombrio, com hospitais sem funcionar e pacientes agonizando pelos corredores. Como se não bastasse, o tráfico de drogas continua atuante com suas mortes e corrupção em todos os níveis. A tudo se some o fato de que a população brasileira está em rota de colisão com o governo e os políticos de maneira geral. O resultado é que as Olimpíadas não chegaram às ruas. Fui atleta de vôlei numa época em que profissionalismo era sonho. O jogar e vencer nos movia, nos contagiava e aproximava da torcida. Hoje, a estrutura que cerca um atleta é bastante diversa, com um aparato que não tínhamos há algumas décadas, todavia o prazer de competir continua o mesmo. Então, como estará a alma dos que vão nos representar nos Jogos quando poucos lhes dão atenção e parecem não se importar com o que vai acontecer? Em crise, creio, como o País. Mais uma vez, política e esporte se imiscuem. Há correntes que acham que o êxito olímpico significaria um êxito do governo e torcem contra; uma visão obtusa, que prejudica o País e confunde os atletas. Estamos, sim, perdendo uma grande oportunidade de consolidarmos uma geração de vencedores. Caso a euforia tivesse tomado conta de todos poderíamos ter jovens disputando corridas, fazendo gols, nadando com todas as forças ao invés de estar nas esquinas traficando drogas ou mortos em valas por balas que não têm nada de perdidas. Cabe uma reflexão. Cabe pararmos e nos lembrarmos de que o esporte deve ser um fator de convergência, não de discordância. A crise está aí, mas não vamos fazer dela desculpa para sermos menos humanos. Precisamos apoiar nossos atletas. A bandeira que eles ostentam é a do Brasil, não de partidos políticos.