Opinião
Acontecimentos
Antigamente (mas bem antigamente mesmo), nos primórdios da civilização, o ser humano via nos acontecimentos ? que hoje denominamos como aleatórios ou coincidências ? sinais claros de um aviso que não poderia ser negado. Darei um exemplo que deixará minha afirmação anterior mais clara: Quando duas pessoas conversavam normalmente e uma delas perguntava: ?Eu estava pensando em fazer algo amanhã. Você quer ir comigo??, se algum evento como um fechar repentino da porta, um tropeço, algo cair perto dos dialogantes e causar susto... Poderiam ser interpretados tais eventos como ?avisos dos deuses? de que tal encontro não seria possível no dia seguinte. Essa visão de que ?as coisas mandam avisos? não significa simplesmente acasos banais ou uma visão espetaculosa e mística do universo. São acontecimentos que nos tocam, e por nos tocar, fazem com que fiquemos atentos ao que sentimos. Usando o exemplo anterior é fácil de desmistificar o aviso. Quando a pergunta foi feita (sobre se a pessoa iria querer sair com a outra amanhã), no exemplo aconteceu algo que causou algum susto repentino. Esse sentimento é a resposta. Se olharmos apenas para o acontecimento sem ligação conosco, vamos ignorá-lo. Mas, da mesma forma como a pergunta foi feita sem aviso, a porta, o tropeço... também aconteceu sem nenhum aviso. O que foi captado foi a sensação; o sentimento entre os eventos. Se algo me tocou, algo quer me dizer alguma coisa. Com a vida corrida e a vida que precisa ser constantemente vencida (os leões que temos que matar por dia), além de não percebemos alguns acontecimentos, tampouco eles conseguem ser acessíveis a nós e se são, encaramos como empecilhos. Se sentirmos um pouco, além de pensar, quantas vezes algo soou estranho e ignoramos como ?isso é coisa da minha cabeça vai. Esquece?? Quantas vezes não damos importância para a chuva torrencial que cai lá fora e mesmo assim vamos dirigir, pois temos que estar em tal lugar na hora certa? Estamos tão mal-acostumados a ouvir o que acontece ao nosso redor que quando ouvimos, não sabemos interpretar. Ao invés de ouvir, muitas vezes damos uma interpretação imediata e o significado desaparece. Nos enganamos. Neste começo de ano, que ao menos um pouco possamos, sem pressa, começar a (re)sentir aquilo que toca nosso coração. Que os mistérios da vida não assustem tanto, que seja leve a convivência não só com os demais, mas com nós mesmos. Que saibamos perdoar nosso coração ferido para que a vida simplesmente aconteça, e acontecendo, não seja tão difícil aceitar e que se temos que lutar, que seja por algo que realmente valha a pena!