Opinião
As duas mortes
Acho que foi Manuel Bandeira quem disse que se morre duas vezes: primeiro na carne, depois no nome. A morte física é a que alcança a todos nós, inapelavelmente, em alguma curva do nosso caminho; já a segunda, a da memória, é aquela que chegará quando não formos mais lembrados sequer pelos familiares e amigos, após a nossa partida definitiva. Testemunho isso todos os anos, no Parque das Flores e no cemitério de Murici, olhando os túmulos abandonados e sujos, sem ao menos uma flor ou uma vela deixados por algum ente querido, a solidão mais eloquente que há. Esta segunda morte é muito cruel, pois condena o falecido a uma espécie de não-existir, a um limbo eterno. Minha avó Maria falava do seu pai, José Vicente Ferreira, com viva admiração e profundo respeito. ?Era um homem de vergonha, Dioginho?, me dizia, cheia de orgulho. Desde que ela se foi, o nome do velho patriarca não é sequer mencionado, perdendo-se a cada dia na poeira do tempo. Para o meu filho e os meus sobrinhos, seus tataranetos, é como se Zé Vicente nunca houvesse existido, eis que nem uma fotografia restou para atestar a sua passagem entre nós. Conosco dar-se-á o mesmo, não nos iludamos: no máximo a segunda geração que nos sucederá, a dos nossos netos, haverá de se lembrar dos nossos trejeitos, de falar dos nossos feitos, de contar um ou outro episódio que tenhamos protagonizado. Talvez riam gostosamente de alguma cena hilária, quem sabem chorem emocionados ao relembrar de determinado momento. Depois deles, passaremos ao esquecimento absoluto, pois os mais novos terão as lembranças mais recentes para se aninharem no seu coração, memórias mais caras que alimentarão o seu tesouro afetivo. Seremos, no máximo, uma referência longínqua, um nome sem significado mencionado vez ou outra por algum descendente curioso, como eu, pelas coisas de antanho. Saibamos, pois, construir no agora os laços de afeto que haverão de nos manter vivos do coração dos que nos são preciosos. Partilhemos o carinho, os gestos de ternura e o cuidado amoroso que nos tornam especiais para o outro, dando-lhe provas palpáveis do quanto ele é único em nosso existir. ?A palavra foi feita para dizer?, nos ensinou Graciliano; digamos, então, ?eu te amo?, ?sinto sua falta?, ?não se afaste de mim?. E edifiquemos por meio das pequenas coisas, com abraços e beijos, a ponte que diminuirá as distâncias entre as nossas relações verdadeiramente importantes, aquelas que se aninham no âmago do coração. No fundo, é isso o que de fato vale a pena, e pouca coisa mais.