Opinião
O governo, os peritos e a sociedade
Mais de quatro meses de greve. Mais de 2 milhões de perícias que deixaram de ser realizadas nesse período, segundo informações da Associação Nacional dos Médicos Peritos do INSS. Esse é o saldo da falta de entendimento entre o governo e a categoria, numa negociação sem resultados, que se arrasta desde antes da greve. E os números não refletem apenas dados frios do tempo de paralisação e do serviço acumulado. Refletem, sobretudo, o prejuízo social àqueles que, durante esse período, ficaram incapacitados para o trabalho, por problemas de saúde (portanto, sem salário), e não conseguiram dar andamento ao pedido de concessão do benefícios, porque não conseguiram ser atendidos por um médico perito. De acordo com o INSS, até o final de dezembro, cerca de 818 mil pedidos de concessão de benefícios estavam parados em função da greve. E o tempo médio de espera para o agendamento passou de 20 para 80 dias. E não é simplesmente o anúncio do fim da greve que vai garantir a normalização da situação a partir do próximo dia 25, quando os peritos voltam ao trabalho. Vai levar um bom tempo para o serviço ser atualizado. Primeiro, pela quantidade acumulada ao longo do período; depois, porque mesmo retornando ao trabalho, os peritos continuam ?em estado de greve?, já que a negociação com o governo não foi fechada. Isto significa que eles podem voltar a cruzar os braços a qualquer momento. Segundo a Associação dos Peritos, o retorno representa apenas uma mudança na forma de protesto ?diante da intransigência e da insanidade do governo? de deixar que mais de 2 milhões de perícias tivessem que ser remarcadas. Diz mais: que os profissionais farão apenas o atendimento emergencial àqueles que ainda não se submeteram à perícia médica inicial; e que nos casos de acidente de trabalho, aposentadoria especial ou por invalidez (já concedidos), as perícias vão continuar suspensas e só serão normalizadas se houver avanço nas negociações com o governo. Embora o INSS já tenha divulgado nota dizendo que o retorno dos peritos permitirá ao instituto, ?envidar esforços para uma rápida e completa regularização do atendimento à população, reduzindo o tempo de espera pela perícia médica?. Tudo indica que não vai ser bem assim. Nisso tudo, a boa notícia é que os efeitos financeiros dos benefícios, ao serem concedidos, retroagem à primeira data agendada, mesmo que a perícia médica tenha sido remarcada durante a paralisação. Menos mal.