Opinião
Reminisc�ncias de ontem e de hoje
Nasci em 1964, no alvorecer funesto do golpe. Meus pais não tinham militância na esquerda. Nem na direita. Tinham medo, suponho, como a maioria da população brasileira, que pouco ouvia falar do que acontecia nos porões dos DOI-CODIs e similares espalhados pelo país. Só lá pelos 14 anos é que me vi torcendo pelo candidato ao Senado, Moura Rocha, que ganhou, mas não levou ? é que pelas regras dos golpistas de então seria eleito o mais votado do partido que, somados os votos de seus candidatos, tivesse a maior votação: a ARENA vencia. Porém, para minha satisfação elegeu-se para a Câmara o meu hoje amigo querido José Costa (MDB). Também Mendonça Neto (MDB). Como somente podiam existir esses dois partidos, na ?democracia? militar, todos do MDB ?eram? de esquerda. E a gente queria ser de esquerda. E, claro, contra a ditadura militar. Ali, não sabia, mas já estava decretado de que lado eu estaria em toda a minha vida. Uma escolha realizada, então, quase que apenas intuitiva (ou seria orgânica?). Eleição seguinte (1982), então estudando Engenharia Civil na UFPE ? que depois abandonei para fazer vestibular para Direito para a mesma universidade ?, fiz campanha para Marcos Freire, governador; aqui, para José Costa, e para o Senado em Moura Rocha; todos derrotados. Foi por essa época ou um pouco antes que iniciei minhas incipientes leituras marxistas, e era leitor voraz da Tribuna da Luta Operária, a que fui aconselhado pelo meu pai: leia, mas não assine. Ele temia por mim. Em 1986, foi eleito o comunista alagoano, Eduardo Bomfim, constituinte nota 10 da Constituição vigente, de 1988, pelo corajoso PCdoB. De lá pra cá, o povo brasileiro elegeu o presidente mais respeitado e homenageado da história deste país, e uma mulher valente, corajosa e digna de todo o respeito e admiração: Lula e Dilma. As Forças Armadas, por sua vez, evoluíram e voltaram a merecer o respeito que a sua genuína e imprescindível missão exigem. E hoje, conhecidos de há muito os crimes de porão tingidos de verde-oliva e sangue, surpreendo-me e entristeço-me quando vejo brasileiros defendendo a volta do regime militar, ou o impedimento da presidenta eleita do Brasil (tentativa golpista travestida de legalista). Mas alegro-me ao constatar a força dos que defendem a democracia tão arduamente conquistada e, de consequência, o mandato legitimamente conquistado da presidenta ? inclusive nas ruas, como pude ver (e participar) no último 16 de dezembro. Definitivamente, o povo vê. E, se necessário, vai à luta.