Opinião
Amea�a de guerra
HUMBERTO MARTINS * Estados Unidos e a Inglaterra, com apoio de mais algumas nações ? Itália e Espanha, entre outras ? poderão atacar o Iraque a qualquer momento. A alegação é de que o regime de Sadam Hussein tem armas capazes de promover agressões, mas, na verdade, cogita-se que o interesse pelo petróleo e pelos recursos hídricos estão por trás dessa empreitada. Armas capazes de promover agressões têm também grande número de nações, entre elas os Estados Unidos, a Inglaterra, a França, a Rússia, a Índia, a China e o Paquistão. Nem por isso ingleses e norte-americanos estão prestes a invadir qualquer uma dessas nações. A idéia fixa do presidente George W. Bush, com o apoio do seu colega britânico, Tony Blair, se concretizada, deverá provocar centenas de milhares de mortos, feridos e refugiados, principalmente entre a população civil, no Oriente Médio. Poderá ter também desdobramentos incalculavelmente graves. Alemanha, França, China e Rússia, entre outros países influentes, discordam da iniciativa norte-americana e inglesa. Julgam que uma intervenção militar só deverá ocorrer como determinação da Organização das Nações Unidas (ONU). Guerras não são novidades no conturbado Oriente Médio, desde os tempos em que as legiões romanas tentavam subjugar povos que consideravam inferiores. Entre os quais os judeus, que desde 1951 voltaram a ter um Estado próprio ? o Estado de Israel ? em terras palestinas. Analisando-se as crises no Oriente Médio nos últimos 100 anos, pode-se revelar que a atual configuração de fronteiras é conseqüência do Acordo Sykes-Picot de 1916, realizado entre Grã-Bretanha, França e Rússia, dividindo o Império Otomano após sua derrota na Primeira Guerra Mundial. Como conseqüência desse acordo, a Inglaterra obteve controle efetivo sobre a área Palestina, enquanto a França dominou a região que é hoje Líbano e Síria. Outros episódios importantes que influíram decisivamente na história do Oriente Médio: a Declaração Balfour, em 1917, que aprovou a idéia do estabelecimento de um ?lar nacional? para o povo judeu, na Pelestina, de autoria de Arthur J. Balfour, ministro do Exterior da Inglaterra; a aprovação pela ONU, em 1947, em favor da divisão da Palestina em dois Estados: um para os judeus e outro para os árabes palestinos, tornando-se Jerusalém um enclave internacional. Após muitas guerras, envolvendo israelenses, palestinos, libaneses, sírios, egípcios, iraquianos, ingleses e franceses, após levantes e revoluções dos quais participaram forças norte-americanas, no Líbano, a nova intervenção anglo-norte-americana joga mais lenha na fogueira do Oriente Médio. Só um grande movimento pela paz, que já ocorre em razoável escala, em numerosos países do mundo, inclusive no Brasil, poderá pôr um paradeiro na guerra que norte-americanos e ingleses pretendem desencadear, a qualquer momento, contra o Iraque. Uma das piores coisas que poderia acontecer ao mundo nesse (ainda) início de século XXI. Não se pode ceifar vidas, inclusive de crianças inocentes, em nome da paz; bem como se utilizar da guerra em nome da democracia. Sem a convivência dos desiguais, não há o exercício da verdadeira cidadania. É o que precisam entender as nações poderosas. (*) É DESEMBARGADOR DO TJ/ALAGOAS