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Opinião

Pungente lembran�a

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Manhã nublada de janeiro, passeio solitariamente à beira mar do Pontal de Coruripe, por entre pedras milenares que a maré baixa deixa à vista. De súbito vem-me à lembrança a imagem do saudoso amigo Rogério Lima Vasconcelos, natural daquelas plagas, apartado prematuramente do nosso convívio no já longínquo 1992, um ano antes da nossa formatura. Um tiro dado na própria cabeça pôs fim à vida daquele que era a maior promessa da minha turma na faculdade de direito, deixando-nos atônitos e tristes, profundamente tristes, na maior tragédia que assolou a nossa vida universitária. Nenhum de nós jamais imaginou que Rogério, com a sua liderança nata e a sua atividade acadêmica tão intensa, vivesse atormentado pelos fantasmas que o arrastariam para o desespero final. De origem humilde, único filho homem e caçula de um modesto funcionário da Usina Coruripe, o meu pranteado amigo era uma daquelas inteligências fadadas ao sucesso, destinado a protagonizar grandes conquistas no mundo jurídico alagoano, quiçá nacional. Disciplinado no estudo, destacava-se especialmente no direito comercial e tributário, matérias com as quais a maioria de nós não simpatizava. Hábil no manuseio da palavra falada, teria sido o orador na nossa solenidade de colação de grau ? tarefa que terminou cabendo a mim, diante da sua ausência. Sem ser nenhum modelo de beleza física, possuía certo magnetismo pessoal que encantava as meninas do nosso curso, para desespero da sua ?cabocla?, como ele carinhosamente se referia à namoradinha lá do interior. Onde quer que estivesse, Rogério logo se tornava o centro das atenções, atraindo a companhia de colegas e professores que se compraziam em partilhar da sua prosa inteligente e arguta. Eu mesmo aprendi deveras com a sua capacidade de escutar a todos. Na areia branca da praia do litoral norte, perto de onde o meu querido amigo efetuou o disparo fatal, pareceu-me ver de novo a sua fisionomia tranquila, o seu olhar irrequieto, os seus óculos pendurados numa corrente de plástico e repousando sobre a barriga que já se mostrava protuberante. O seu pigarro antes da próxima frase a ser dita, o seu bigodinho ralo teimando em se estender sob o nariz, o braço esquerdo tentando segurar, sem muito sucesso, três ou quatro livros levados sempre de um lado para outro. Desaparecido há quase um quarto de século, Rogério Lima Vasconcelos jamais se ausentou dos meus pensamentos nem das minhas orações. E ali, ao som das ondas que quebravam sem parar, ele fez-se mais presente do que nunca.

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