Opinião
O carnaval de ontem e o de hoje
Os carnavais de meu tempo eram brincadeiras que só tinham espaço para a alegria. Raramente havia acontecimentos dramáticos durante a folia. Até os marginais procuravam comportar-se para não serem punidos e terem que permanecer na cadeia durante os dias momescos. As festas se desenvolviam nos clubes ou nas ruas. As fantasias eram obrigatórias. Caprichadas para os bailes e mais simples para os corsos. Serpentinas, confetes e lança-perfumes não faltavam nos dois ambientes. As primeiras se entrelaçavam coloridas no ar, presas nos obstáculos encontrados no percurso. Lembro-me como me agradava organizar os meus disfarces. Imaginá-los e confeccioná-los, às vezes meses a fio, empolgada, querendo surpreender e encantar os participantes da folia! Adorava transformar-me em determinado personagem histórico ou usar os trajes típicos de qualquer país longínquo. Por alguns instantes parecia adquirir uma outra identidade e isso me divertia. As festas eram um verdadeiro desfile de fantasias, cada qual mais linda que a outra! Havia prêmios, e como era difícil, para a comissão julgadora, eleger a mais bonita e a mais original! Os salões regurgitavam de foliões acalorados, dispostos a brincar até o amanhecer. Alguns se excediam na bebida e às vezes usavam o lança perfume para cheirar, procurando aumentar a animação, mas si se tornavam inconvenientes, eram convidados a se retirar pela diretoria do clube. Nas ruas, as pessoas, em carros abertos, faziam batalhas de serpentina e, nos últimos anos o mela-mela, usando talco, água e farinha de trigo. Orquestras, localizadas no perímetro do corso, executavam as músicas carnavalescas. Todos cantavam os consagrados sucessos. Brincava-se os quatro dias de carnaval e ainda havia assaltos, à tarde, na casa dos Nogueira, em Saúde, na de Abelardo Lopes e na Fábrica dos Paiva, em Rio Largo. Era uma brincadeira tão pura na sua essência! Hoje tudo mudou: as fantasias foram trocadas por abadás sem graça, pula-se atrás de Trios Elétricos e as músicas inocentes de antigamente foram substituídas por axés, cujas letras pobres de inspiração, são às vezes até indecentes. Brinca-se cercados por cordões de isolamento, protegidos por seguranças para evitar a violência. Até que os marginais andam mais quietos, talvez porque queiram, também brincar, ou talvez se limitem a fazer alguns ?pic-pockets? nos trocados e nos celulares dos foliões? Ou, então, estejam bastante ocupados assaltando as casas dos ausentes em férias, ou os hotéis dos turistas, como é a moda atual. A polícia coitada, reduzida como é, como vai dar conta de guardar tantos lugares?