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Opinião

Lembran�as daquele lugar

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Na rua revestida de pedras havia uma casa muito simples de portas pesadas em madeira, corredor e varanda bem ao lado da sala com janelas rústicas que iluminavam os ambientes internos. A mãe, no cair da tarde, nina e amamenta no balanço da rede o filho caçula cantando: ?Boi da cara preta pega esse menino?... Quanta saudade daquele lugar! Ali tinha palmatória, boas chineladas, o melhor dos remédios para corrigir molecagens e brigas de irmãos. Naquele lugar tinha afeto, amor, compreensão e disciplina. Sagrada era a hora das refeições em que pais e filhos sentavam à mesa todos juntos enquanto a mãezona, carinhosamente, fazia o prato de cada um sem queixumes. Mãe, naquele tempo, era a dedicada senhora do lar. Lavar, passar, cozinhar, faxinar, cuidar e amar aos filhos e marido. Todos os momentos daquele lugar são vistos com orgulho porque cada um foi importante no ensinamento da vida. A primeira escola, os primeiros dias de desconfiança e aproximação dos novos coleguinhas, o medo da cara séria, mandona e respeitada da professora! Cada lembrança nos remete ao passado de uma vida tão singela, mas que faz aguçar saudades no velho coração. Saudade da banda de música que lá no coreto da praça tocava o mais famoso dos dobrados: Cisne Branco. O som dos trombones, clarinetes e a marcação da tuba trazido pelo vento invadia a casa como um acalanto nas noites de céu iluminado pelas estrelas. No fogão, a lenha ardia preparando a sopa do jantar. Na cadeira de balanço, o pai, que outrora foi instrumentista da banda, fazia a marcação do ritmo do dobrado com mãos e pés enquanto seus pequenos olhos brilhavam de emoção. Era sempre assim quando ele via a banda tocar. Daquele lugar, todas as lembranças mais simples nos trazem sempre uma grande saudade. Da mãe chamando para acordar com voz suave que aos pouco ia se elevando; da lua, do sol refletindo no rio, das pedras do morro, das serras distantes que harmonicamente compunham a beleza da cidade. O dobrar do sino na torre da igreja matriz anunciando que alguém naquele dia partira dessa para a melhor. Saudade das enchentes que assombravam a cidade e quase ninguém dormia temendo a invasão das águas das lagoas. Das festas de São João com as fogueiras queimando enquanto os olhos lacrimejavam impregnados de fumaça. Dos bailes, dos amores de menino e dos beijos roubados na janela da linda e tímida namorada. Saudade da gente simples e generosa que todos os dias sob a brisa da noite e a resplandecência da lua, jogavam conversa fora nas calçadas de suas casas com os vizinhos sem hora para acabar.

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