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Opinião

A Trag�dia do Circo M�ximo

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Leio os jornais e vejo que este não é o Penedo que aprendi a amar e respeitar. Parafraseando Jorge de Lima, O meu Penedo é outro. Gritam as cenas de correria e tiros no espaço de uma festa. Frente ao deprimente espetáculo pensei em calar. A história julgará os desprezíveis gestores e seus áulicos, mas a consciência e a indignação falam mais alto. A tomada de posição é uma imposição do caráter e da cidadania. Recorro às lições da história para tentar entender o horror. Os romanos, para dominar o mundo conhecido, tratavam os inimigos com os piores mecanismos de tortura e ofereciam pão e circo ao povo que subjugava. A crueldade vinha com legiões a arrasar terras, o pão do excedente produzido por escravos e o circo era o espetáculo de gladiadores, rebeldes escravizados, a se enfrentarem mortalmente. Os melhores destes mártires eram exibidos no Circo Máximo, o Coliseu Romano. O circo patrocinado pela administração municipal não tem nada de máximo e se chama Arena Sinimbu. Ironia pensar a denominação como uma homenagem ao Visconde de Sinimbu, um político que defendia o uso da educação como mecanismo de combate à violência social e de defesa da segurança pública. Antes de oferecer circo é preciso que os gestores respeitem tudo aquilo que mais fundo fala à alma do cidadão e conceda a este a capacidade de ganhar seu pão honestamente. E o caminho é a educação. Por trilhas torpes, a municipalidade deixou de pagar o décimo terceiro dos professores e patrocinou a anarquia. No ano de 1884 meus antepassados inauguraram a tradição de louvar e agradecer a fartura do rio São Francisco com a procissão do Nosso Senhor dos Navegantes. A festa vinha se fazendo com respeito ao sentimento religioso do penedense. Com espírito de união, palmilhava-se as ruas conduzindo nos ombros o andor com a imagem do Bom Jesus. No cais o santo era embarcado para a etapa fluvial da procissão, o ápice do evento. Depois vinham as manifestações profanas com as famílias desmontavam as lapinhas e indo assistir aos Reisados, Guerreiros, Cavalhadas e Pastorinhas que convocavam todos a ver o nascimento do ?desejado das gentes?. Assim se fechava o ciclo natalino de nossos folguedos populares. A Casa do Penedo, em parceria com a Unesco, produziu um DVD mostrando a importância da festa, reconhecida internacionalmente como destaque do patrimônio imaterial brasileiro. Não sou saudosista nem passadista. Sei, no entanto, que a alma do homem sanfranciscano sabe cultuar suas tradições e olha o futuro com esperança e desejo de empreender o novo. Ser moderno não é confinar a população em um curral e a obrigar a assistir a shows de grupos da moda gastando, segundo estimativa local, mais de dois milhões de reais. A farra, a gastança e tais apresentações são peças esdrúxulas ao evento. Natural é a reação do público rebelado, a depredar e atirar, despertando seu instinto de oprimido. No século passado Nina Rodrigues falava das anormalidades cotidianas que geravam violências e fúrias. É preciso livrar o país de gestores que, sentindo-se senhores do mundo, desrespeitam com violência e malversação o cidadão, o homem do povo.

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