Opinião
E se formos melhores que ontem?
Conversando com minha filha sobre escola e educação outro dia, falamos sobre competitividade. Ela afirmando, com a veemência própria dos mais novos cheios de certezas ? e isso é ótimo sob algum aspecto - que a competição era saudável; pronto: estava eu convencida imediatamente. Crescemos em uma sociedade competitiva e isso pode ser bom. Sim, é. Nos esportes é uma maravilha. Afinal, é a intenção do esporte: ganhar do adversário, competir para ser o melhor; saber-se o máximo do seu físico. Ainda que existam ressalvas com relação a exageros sobre-humanos que prejudicam muito a saúde do atleta, algum esforço é válido para ser o vencedor da disputa. A competição com limites de seu próprio corpo em saúde é saudável sim. Com fair-play; sem violências. Mas será que entre cidadãos e estudantes é assim, tão saudável? Não precisamos ganhar de ninguém que não seja de nós mesmos, em nossos aspectos inferiores. Foi lendo um artigo do teólogo Frei Betto que minhas certezas se abalaram novamente. Embora possa haver uma associação a alguma intenção política (tudo que se refere ao humano em sociedade é realmente uma forma de política) não faço consideração a este ponto, pois o foco é nos relacionamentos sociais apenas. Atemos nossa atenção apenas ao tema competição. Voltando ao diálogo com minha filha, minha resposta a ela foi tão automática quanto clichê ao dizer que sim, ?a competição é saudável em certo grau?. Ao ler o referido artigo, fiz uma reflexão acerca do assunto, já que a conversa havia sido tão recente. O artigo é um alerta sobre a educação (em sentido amplo) de nossas crianças que, por conta do estímulo à alta competitividade, tornam-se crianças menos solidárias a cada dia e futuros adultos não solidários também. Neste artigo, apresentam-se pesquisas de campo com humanos e animais a respeito do assunto. E ? pasmem! ? estamos menos solidários que os chimpanzés. Entre outros, o texto nos relembra o caso de uma criança que caiu em uma jaula de primatas no ano de 1996 e um gorila a socorreu até que viessem em seu socorro, buscando confortá-la até que alguém chegasse. Isso me fez pensar a respeito daquela conversa de que há, sim, uma competitividade saudável. Concluí que apenas no esporte e em concursos havia essa necessidade e, agora, nem sei exatamente sobre a salubridade disso tudo. Nossa sociedade está precisando voltar à sua origem humana, mais que científica e friamente intelectual. Há um clamor de urgência na revisão destes valores para buscarmos, sim, a solidariedade visando à construção de um mundo melhor, para uma vida melhor. No final da leitura percebi que, independentemente de minhas mais profundas convicções, sou e somos muito influenciados pelo que se estabeleceu como certo por muito tempo. Uma espécie de cultura incontestável. E eu me pergunto se nós fôssemos mais humanos, mais sensíveis ao outro, mais solidários e empáticos, se nossa sociedade não seria mais feliz e menos sofrida. E se fôssemos assim, e se e se. Só saberemos se tentarmos. Só saberemos se fizermos. Só saberemos se formos melhores que ontem, em uma competição ? esta sim, muito saudável! ? de nós para conosco mesmos. Só saberemos se.