Opinião
Alegria dos eternos carnavais
A alegria pede passagem para soltar as suas asas e fazer esquecer as tristezas que surgem na vida de cada um. Brincar como um ofício de data marcada, somando surpresas de encontros descontraídos, predispostos a erguer uma felicidade sem nome e sem limites definidos. A identidade dos foliões não se mede pelos critérios do cotidiano. Uma corrente sem eleições une todos, presentes pelo desejo de livremente curtir a alegria, extraída de lembranças teimosas, de enredos tristes ou construída pelo improviso das emoções. O reinado momesco apesar de passageiro deixa marcas indeléveis. De personagens, de lugares, de doces pecados e de sons musicais gravados no coração. É a vida com seus instantes risonhos e coloridos ao lado de lembranças sombrias. É o ritmo alucinante ou musical da existência. Ressoam as palavras do grande Carlos Drummond de Andrade, ditas no clima do Carnaval ? Deus me abandonou / no meio da orgia / entre uma baiana e uma egípcia / Estou perdido / sem olhos, sem boca e sem dimensões / As fitas, as cores, os barulhos passam por mim de raspão / Uma das magias do Carnaval seria a exaltação das pequenas histórias, de doces mágoas, de feridas risonhas e dos instantes alegres. Um terreno fértil aos inspirados compositores, aos sambas enredos, às letras sonoras dos frevos e marchas, à vibração do passista anônimo e solitário - todos cobertos de fantasias. Em nossa Maceió, territórios e figuras humanas postas ao sabor do tempo. O bairro de Bebedouro, insone pelas lembranças dos velhos carnavais. Na Ponta Grossa, ressurgem seus moleques, passistas e namoradores, celebrando o espírito trepidante do povão. Na Ponta Verde, a reunião sensual das novas gerações herdeiras da Avenida da Paz e continuadoras do processo encantador da vida. Na Barra, a nova república das festanças, das descobertas dos turistas, das ilusões dos descansos, numa forma mais livre de viver os momentos. Os doutores da folia se apresentam ? Braga Lyra, Carlito Lima, Emmanoel Fortes, Marcos Davi, Mozart Cintra, Carmen Lúcia Dantas, Felipe Camelo, Alfredo Gazanneo, Myrna Porto, Geraldo Majella, Alexandre Nobre e tantos outros, envolvidos pelas chamas do passado e fazendo novas histórias de amor e encantamentos. O período carnavalesco une o passado ao presente, relembra nossas tradições e desperta sentimentos adormecidos. Faz renascer energias, cria compromissos com a realidade festiva e ao som de alguma música projeta desejos, numa agitada esperança de nunca cessar a alegria dos memoráveis encontros.