Opinião
Cortes sem anestesia
A crueza da realidade começa a mostrar suas garras, dilacerando ilusões de quem acreditava ser o conserto do Brasil algo simples e factível apenas com mudanças ?éticas? na condução do País. Os recentes cortes na carne do orçamento assustaram os menos avisados. De certa forma, a fala do governo Lula responsabilizando a gestão anterior está correta ? em se considerando a estratégia adotada por FHC. Nesse sentido, a culpa é da política implementada durante os oito anos tucanos. Política essa que o governo estelar decidiu dar seguimento em suas linhas básicas, desenhadas a partir do FMI. A questão, portanto, é de política e não de aritmética. O corte no orçamento não acontece em função de erros de cálculo da equipe FHC. A lâmina afiada teve de ser usada em função de adequações a uma linha econômica pré-estabelecida, onde em primeiríssimo lugar estão os compromissos com o Fundo Monetário Internacional. Daí advêm as somas e subtrações operadas nos algarismos do orçamento. Na primeira foiçada, ao contrário dos pronunciamentos oficiais, a vítima terá sido exatamente a menina dos olhos do novo governo, a carne de primeira dos programas sociais. O gabinete do Ministério Extraordinário de Segurança Alimentar e de Combate à Fome, responsável pelo Fome Zero, perdeu cerca de R$ 34,5 milhões - o equivalente a cerca de 690 mil cartões de R$ 50 mensais cada. O orçamento anterior previa recursos de R$ 1,756 bilhão. Saiu-se do zero absoluto. Assim, a imprensa especializada tem dimensionado os talhos sofridos por áreas essenciais: ?O Ministério da Saúde perdeu R$ 1,62 bilhão de seu orçamento. O Ministério da Educação teve redução de gastos de R$ 341 milhões. Do Ministério da Integração Social, responsável por projetos de irrigação no Nordeste do país, o governo retirou R$ 1,85 bilhão. O Ministério das Cidades perdeu R$ 1,87 bilhão? (dados publicados pela Folha de São Paulo). Isso não significa dizer que a esperança dos brasileiros deva se sentir decepada, mas comprova a necessidade de algo mais que boas intenções para mudar os rumos brasileiros.