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As li��es de Oswaldo Cruz

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Sem rádio, TV ou internet e tendo contra si o povo e a imprensa, Oswaldo Cruz conseguiu erradicar o mosquito aedes aegypt no início do século XX, no Rio do Janeiro. A capital do Brasil, uma das mais sujas do mundo, estava tomada por uma epidemia de febre amarela. As medidas foram drásticas. Ele criou o famoso batalhão de mata-mosquitos e foi, literalmente, à luta. Em um mês vistoriou 15 mil prédios, extinguiu perto de três mil focos de larvas, e promoveu uma limpeza total entrando em casas e quintais retirando lixo. A populaçào passou a odiá-lo, os jornais o ridicularizavam com charges, mas Cruz contava com o apoio do presidente Rodrigues Alves. A insatisfação atingiu o auge quando ele resolveu vacinar a todos contra a varíola (o presidente tornou a vacinação obrigatória). Houve manifestaçòes violentas e o governo recuou ? anos depois, a sociedade reconheceu que Oswaldo Cruz estava certo e fez filas para vacinaçào. Criticado aqui alcançou reconhecimento ineernacional. Tornou-se exemplo de como as autoridades de saúde com organização e apoio político podem enfrentar epidemias e vencê-las. Por que, então, estamos perdendo a guerra contra o mesmo mosquito que conseguimos derrotar há mais de um século? Não se trata mais de febre amarela, mas de uma tríplice ameaça: zika, dengue e chikungunya, e o que se percebe é uma certa lassidão nas ações de combate, como se todos soubessem o que fazer, mas não se inclinam por isso. É como se faltasse autoridade, determinação e o resultado tem sido desastroso para o Brasil em todos os sentidos. O País está na mira da Organização Mundial de Saúde e entrou na lista vermelha das Nações que, na dúvida, devem ser evitadas. Isso às vesperas de uma Olimpíada. Respiramos democracia e precisamos respeitar as liberdades individuais. Isso impede hoje de agirmos como agiu Oswaldo Cruz no passado. Há a inviolabiliade do lar, mas isso não pode ser um obstáculo para a saúde pública ? o coletivo se impõe pelo bem de todos. A pretexto de matar um mosquito, ninguém pode invadir a casa de ninguém, é fato, diz a Lei. Resta apelar para a consciência cívica, o dever moral ? o cidadão deve agir como cidadão. Enquanto isso, os postos de saúde estão superlotados com a população reclamando que não há médicos suficientes para atender a todos que se queixam de febre, dores no corpo e astenia. Muitos não percebem que o que sentem agora foi motivado pelo lixo acumulado em casa no passado. Só venceremos essa guerra se governo federal, estados e municípios se unirem; se houver a implantação de um projeto que contemple ações extraordinárias (e aí, o individual queda diante do coletivo) e não excludentes ? o mosquito age não apenas em áreas consideradas pobres, mas também em condomínios de luxo. Ele gosta de água limpa e não faz barulho. Um mosquito educado, e mortal.

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