Opinião
Escutar o Z� Ningu�m
O descalabro do Circo Máximo, digo, da Arena Sinimbu, no Penedo, esconde e revela descasos por todos os lados. Entretanto três questões, além do assassinato paulatino de nossa alma ancestral, neste momento gritam com mais aceso vigor. A primeira delas diz respeito ao grave assoreamento de todo Baixo São Francisco. É fato que, pela primeira vez em sua história centenária, a procissão fluvial se viu ameaçada. Quase houve seu cancelamento porque o rio, gravemente maculado, não tinha forças suficientes para conduzir as embarcações. A solução veio com um humilhante pedido para que a Chesf abrisse as comportas da hidroelétrica do Xingó. Somente assim se conseguiu o calado mínimo necessário à navegação. Providencialmente as autoridades puseram a culpa na decantada crise hídrica. Esta crise, no entanto, não é natural, e muito menos hídrica. A crise é de gestão. Há anos usasse de maneira abusiva e irresponsável as águas do Velho Chico que hoje, lamentavelmente, encontram-se em estado terminal. E, a continuar assim, apagará sua história de quinhentos anos da forma mais lastimável possível. Não querem ver os gestores ? e aí abre-se a segunda questão ?, mas ferir os sentimentos íntimos de um povo o leva a reagir de maneira muitas vezes violenta, com esta última arma que lhe sobra para se impor. E isso aconteceu naquele dia trágico. É exigir muito que nossos bravos gestores leiam algo além das colunas jornalísticas e dos relatórios condenatório do Tribunal de Contas, mas bastaria uma olhada em texto clássicos, como Escuta, Zé Ninguém, do psicanalista Wilhelm Reich para se entender o que houve de fato. Acuada e presa, a população reagiu como uma fera ferida que se atira em defesa da própria vida. Também me parece natural que o prefeito não entenda claramente os fatos, e neste ponto surge a terceira questão de agora. A cidade não é do prefeito, até porque ele não mora nela. Olhando a urbe além de suas fronteiras, negando-se a vivenciar o cotidiano revelador de sua gente, nosso gestor perde o senso e o conhecimento real daquilo que precisa e deve administrar. Fica tão somente à mercê dos relatos parciais de seus áulicos. Todas estas informações nos apontam caminhos. Não quero nem sou um mestre inconteste, apenas exerço minha condição de cidadão para, diante de tudo que vivi, refletir e analisar. O São Francisco precisa ser revitalizado com urgência, a gente ribeirinha precisa ser respeitada e os gestores precisam viver a cidade que se propõem a gerir. Nestes tempos de cruéis inversões de valores já não cabe erros. E os erros, mais que um terrível predicativo de nossos políticos, se mostra como um deboche sobre aqueles que eles devem defender e cuidar.