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Quem sabe faz a hora

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?De tudo ficou um pouco/ Do meu medo. Do teu asco/ Dos gritos gagos/ Da rosa / ficou um pouco.? Lembrando o poema Resíduo, de Carlos Drummond de Andrade, penso no que ficou da Festa de Nosso Senhor dos Navegantes, de 2016, em Penedo. Como o poeta, acredito que fica sempre em nós um eco das ações que nos chegam por conhecimento ou visão. Além dos legados óbvios da indignação, do assassinato das tradições mais caras da cidade, da lástima desenhada na violência fútil, deve ficar no cidadão o desejo da reflexão. É isso que espero. Todo aquele triste acontecimento deve ser envolvido num manto de utilidade, e isso somente se dará quando nos debruçarmos sobre ele para conhecermos suas razões e encontrarmos o ponto exato onde garimpar suas lições. A primeira, e talvez mais importante destas reflexões, vem carregada de componentes de cidadania e plenamente despida de gestos políticos. O que queremos de um governo? A pergunta pode ser vista como um jogo político, reconheço, mas aqui não se trata de trocar o grupo A pelo grupo B. Todos têm seus interesses legítimos e ilegítimos. Resta-nos buscar neste conluio de vivacidades a Política maiúscula, aquela que respeita o cidadão e com ele se irmana na defesa do bem comum. Então, o que esperar de um governo? No mínimo, os mecanismos de oportunidade construídos a partir da educação. A população consciente é a primeira a negar o paternalismo minúsculo da opereta farrista e a exigir seus direitos plenos, inclusive a defesa de seus bens culturais. ?Quem sabe faz a hora?, cantava Geraldo Vandré no tempo em que também a canção despertava nossas consciências. E, uma segunda reflexão, está mais do que na hora do Penedo construir seu futuro a partir dos alicerces de seu passado. Precisamos nos defender dos vândalos de toda ordem que tentam sufocar nossa alma ancestral no lamaçal da mediocridade. Esta luta passa pelo resgate de nossas tradições. São elas que nos ensinam, outra reflexão, a sermos melhores e mais senhores de nosso tempo. Cada Guerreiro, Pastoril, Reisado e Lapinha que erguemos e cultuamos é um pedaço vivo de nós que plantamos na consciência de nossos contemporâneos. Assim, reafirmamos a força de nossas almas e podemos, de cabeça erguida, palmilhar as ruas levando nos ombros o andor do Bom Jesus, como nos ensinam as tradições. Cabe ao Iphan, principal gestor de nossa herança histórica, atuar na defesa do patrimônio imaterial. É importante não deixar ruir as construções prediais, restaurar o Convento Franciscano, mas também é preciso se voltar para o que foi erguido pela crença do homem penedense. Sugiro a urgente reunião desses gestores com a população, com o cidadão em geral para revitalizar o que ainda resta de nossa cultura. Também ela não pode ficar à mercê do descaso e dos festejos medíocres. Ela tem uma grandeza que deve prevalecer. É preciso, finalmente, dizer o que repudiamos e que somos senhores de nossos destinos. Definitivamente, o futuro que almejamos não caminha de mãos dadas com o circo de horrores que presenciamos em Penedo.

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