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Homens em tempos sombrios

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Dia desses, encontrei Audálio Dantas em Maceió. Murmurei-lhe: Audálio! ? Ele, sou eu mesmo. Desculpei-me, mas não contive a curiosidade de perguntar pelos tempos sombrios de 1975. Assaquei-lhe a primeira interpelação: ? não teve medo? Senti, respondeu. Mas arranquei a coragem do medo. Referia-me ao ato realizado há 40 anos na Catedral da Sé de São Paulo, pela morte de Vlado Herzog, nos porões da ditadura. Ato presidido pelo Cardeal Arns. 8 mil pessoas acorreram à catedral, com a praça tomada de forças policiais. Ricardo Kotscho, que ficou à espreita nas ruas próximas, disse: ? aquilo era para poucos, para quem tinha coragem. Mas, para dom Hélder ?quanto mais negra a noite, mas traz em si a madrugada? e ?ali, naquele ato, começava a cair a ditadura no Brasil?. Alagoano de Tanque D?arca, esteve no olho do furacão. Lembrei-me de Hannah Arendt, que em seu ?Homens em tempos sombrios? lembra que, ?mesmo no tempo mais sombrio temos o direito de esperar alguma iluminação, e que tal iluminação pode bem provir, menos das teorias e conceitos, e mais da luz incerta, bruxuleante e frequentemente fraca que alguns homens e mulheres, nas vidas e obras, farão brilhar em quase todas as circunstâncias e irradiarão pelo tempo que lhes foi dado na terra.? Audálio veio receber seu Doutor Honoris Causa e almoçar com sua professora , dona Dulce Gomes, aos 104 anos, que despertou-lhe o gosto da leitura. Dentre os alunos, tem de governador ? Teobaldo Barbosa, a médico, artista plástico e deputado federal. Assaltou-me a pergunta Hamletiana: o tempo histórico forja os homens ou os homens forjam o tempo histórico? E, agora, recentemente que no programa Roda Viva, da TV Cultura, Juca Kfouri declamou: ? Audálio fez jornalistas que estavam de joelhos, ficarem eretos. Os personas que vivem esses momentos históricos se imolam pela vida!, pois ele próprio caminhava sobre a linha do equilibrista. Não olhe para baixo, senão cai, disse o malabarista. De que vive um personagem desses? Dos milagres de Deus. Teve que abandonar o jornalismo, foi deputado por dois mandatos e quando foi requerer aposentadoria, o prazo tinha vencido. Ficou sem nada. Vive pendurado no cheque especial e não consegue cobrar nas palestras, agora ferreamente administradas pela esposa Vanira: ? mas, isso aí, tem um dinheirinho!? Ele irradia uma paz de missão cumprida: Audálio, o alagoano de 04 culhões roxos, que não hesitou em combater a ditadura, dirigindo o sindicato dos jornalistas do Estado de São Paulo, empunha a flama da máxima bíblica: ?ninguém toca impunemente no homem, que nasceu do coração de Deus para ser fonte de amor?, foi o Salmo lido por D. Paulo. E Audálio bradou com Castro Alves: ?Senhor Deus dos desgraçados/Dizei-me vós, Senhor Deus/Se é mentira, se é verdade?Tanto horror perante os céus?. Agora os tempos sombrios são outros:aguardamos os que se imolam pela nação, condenados pelo destino para a missão.

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