Opinião
Quando a fic��o n�o consegue vencer a hist�ria
Mais uma vez assistindo ao seriado ?Os Bórgias?, uma produção canadense de 2011, mesmo sendo o tema tratado como ficção histórica, deu para perceber perfeitamente até onde vai a ficção e até onde vai a História. E, mesmo assim, cada personagem incorpora sua biografia com muita clareza, sobretudo o próprio papa Alexandre VI. O que o seriado oferece de mais interessante são as motivações ou interesses pessoais para a compreensão de alguns episódios que a História registra como a ?Bula Intercaetera?, que criou o ?Tratado de Tordesilhas?, por exemplo. Mas é do reformador dominicano Girolamo Savonarola que devemos reconhecer o compromisso da série com a verdade. Savonarola envolveu-se numa teia de inimizades com Florença, sobretudo com os capitães das finanças e das artes: os Médicis e o próprio Rodrigo Bórgia ? o Papa. Mas Florença nessa época era realmente a grande prostituta, como ele mesmo a tratava em seus sermões. Devemos reconhecer que os anseios do renascimento eram superar o Império Romano em todo o seu esplendor. Para eles, a queda de Roma, somada ao período medieval, representava um retrocesso na história da humanidade. Mas essa superação não era apenas artística, científica ou cultural, mas também na imoralidade, na corrupção, na vaidade e no poder. E Roma nas mãos dos Bórgias chancelava toda essa ignomínia. Temos que reconhecer que foi o tempero da vaidade, do poder e da competição e das intrigas entre os principados, marquesados e repúblicas que construíram a Itália moderna que hoje é um dos maiores museus a céu aberto do mundo. E Savonarola era um dominicano, herdeiro da Santa Inquisição que assolou o período medieval. A série revela por que os seus seguidores eram chamados de ?piagnoni? ou chorões. Mais ainda, o quanto em qualquer época o povo admoestado em nome de um Deus Apocalíptico pode chegar ao fanatismo. Savonarola foi queimado na fogueira, da mesma forma com que queimou as vaidades florentinas, representadas por livros e obras de arte, sob o olhar de Da Vinci, Maquiavel e tantos outros. A História seguiu o seu curso, até que o renascimento começou a virar uma escola, sem ideais de grandeza e sem um olhar no passado romano. Mesmo chamado de maneirismo, continuou fazendo os mesmos estragos na fé cristã. Só após o concílio de Trento o Barroco chegou como o estilo da contrarreforma. A esta altura, a Igreja já estava dividida. A volta da sacralidade das igrejas veio tarde demais, com as ideias iluministas já à solta.