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Nº 5735
Opinião

Apocal�pticos e integrados

O mundo literário lamenta o falecimento do grande pensador italiano Umberto Eco (1932-2016) e ao mesmo tempo celebra a rica produção intelectual de um homem lúcido no mundo ocidental e dos tempos contemporâneos. Especializado em filosofia, semiologista,

Por | Edição do dia 26/02/2016 - Matéria atualizada em 26/02/2016 às 00h00

O mundo literário lamenta o falecimento do grande pensador italiano Umberto Eco (1932-2016) e ao mesmo tempo celebra a rica produção intelectual de um homem lúcido no mundo ocidental e dos tempos contemporâneos. Especializado em filosofia, semiologista, medievalista, autor de vários tratados, obras de ficção de repercussão, Umberto Eco também foi, de várias maneiras, um crítico e ensaísta sobre a globalização, a matriz neoliberal e a ideologia dominante no atual período histórico que vivenciamos. Autor de O Nome da Rosa e o Pêndulo de Foucault, entre vários best-sellers, lançou em 2015 outro livro polêmico, Número Zero, uma narrativa ácida sobre o atual papel da grande mídia hegemônica global. Com Apocalípticos e Integrados (1964) traça uma crítica à grande mídia mergulhada numa visão elitista e nostálgica da cultura, ao tempo em que, numa atitude cúmplice, divulga os produtos culturais ocultando o modo como são produzidos. Em Número Zero, mostra como a chantagem política seria o motor de um jornal que jamais seria publicado, mas sua edição experimental era o próprio mote de uma sórdida trama que, embora ficcional, correspondeu, de fato, à vida política italiana no final do século 20. Para um dos seus personagens, essa grande mídia não é feita para revelar, mas para encobrir as notícias que interessam aos grupos oligarcas que em última instância ditam as regras na sociedade. As reflexões de Eco têm valor universal, já que a preponderância das forças do Mercado financeiro, das corporações legais, ou mais ou menos subterrâneas, continuam ditando as linhas editoriais da mídia hegemônica. É o que acontece no Brasil, e na América Latina, quando os mesmos atores arquitetam o retorno econômico para a via ultraliberal e o democrático rumo a um Estado de Exceção. Sob a idealização de que a retomada da democracia por si só resolveria os nossos grandes problemas, o País procura agora, imerso em substancial crise institucional, o norte que afirme um projeto nacional de desenvolvimento estratégico, as grandes reformas sociais inadiáveis, o Estado de Direito indeclinável, a soberania ameaçada. Assim, nessa peleja, não há uma terceira via. Ou se está com o progresso social, a autonomia nacional, ou, de um jeito ou de outro, alinha-se ao retrocesso econômico e institucional.

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