Opinião
Compostura
Era garoto de nove, dez anos, quando presenciei uma cena que me marcou profundamente. Bebedouro estava em festa. Era Natal. Parecia que a orfandade do Major Bonifácio Silveira estaria sendo esconjurada. O festeiro Major dera adeus às festas e, pouco depois, despedira-se da vida. O retiro involuntário do grande festeiro, do homem que elevara o modesto logradouro em ?bairro das elites?, ferira de morte a glória do bairro. O corredor espremido entre o Alto do Jacutinga e o braço da lagoa Mundaú sempre fora habitado pela classe média baixa. Era essa gente humilde que recebia os moradores do Farol e do Centro. Eles iam aos borbotões nos festejos juninos, mas o cavalo de batalha do Major era mesmo o Natal. Com efeito, todos aqueles saborosos folguedos populares eram eviscerados com estupenda grandiosidade. Com o passamento do eminente agitador cultural, Bebedouro entraria num estado letárgico, diria, forçando a metáfora, em estado larvar. Uma quietude, uma pasmaceira era pressentida nos becos e praças do arrabalde. A reação chegaria pela Igreja, na figura do padre Fernando Iório. Com os limites que os votos religiosos impingiam, Iório transfigurou-se no Major Bonifácio. Jovem de vinte e poucos anos, ao lado de sermões que remetiam aos grandes oradores sacros, o novo pároco deu uma nova feição aos festejos. Tivemos, por sinal, na idade provecta, eu e o padre (naquela altura bispo emérito), a chance de conversarmos sobre aquelas festas. Para minha felicidade, Iório não se lembrava de ter sido meu confessor. A memória prodigiosa do prelado dera sumiço nos meus adolescentes cabeludos pecados. Como queria dizer, assistia ao pastoril quando, de súbito, vozes exaltadas emudeceram as pastorinhas. Um senhor grisalho estava sendo arrastado por um brutamontes soldado da Polícia Militar. Antes, fora esbofeteado com tal violência que se esparramou na rala grama da Praça da Matriz. Logo se soube: o cidadão havia reclamado do militar pelos assédios a uma das filhas. O estapeado, benquisto na comunidade, nunca mais foi visto na rua. Dizia-se que ele se permitia um rápido passeio durante as vazias madrugadas. Seis meses depois da arbitrária prisão, foi encontrado dependurado na mangueira do seu quintal. Quando vemos os risos cínicos do marqueteiro Santana e da mulher, Monica, apesar das algemas, somos impelidos a pensar ?marqueteiramente?. Eles são as imagens e semelhanças dos seus clientes e admiradores. Perderam completamente a compostura.