Opinião
Espet�culo midi�tico
Ontem, o País acordou com a notícia de que a Polícia Federal estava realizando buscas e apreensões na casa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em São Bernardo do Campo, e no Instituto Lula em São Paulo, em mais uma fase da Operação Lava Jato. A ação, batizada de Aletheia ? referência a uma expressão grega que significa ?busca da verdade? ? mobilizou cerca de 200 policiais federais e 30 auditores da Receita Federal. O ex-presidente foi alvo de um mandado de condução coercitiva, quando a pessoa é levada compulsoriamente para fim de prestar depoimento e depois é liberada. A operação se transformou num grande espetáculo midiático. A grande mídia mobilizou suas equipes para a cobertura. Nas ruas, acirraram-se ainda mais os ânimos entre apoiadores e opositores do ex-presidente, num País dividido em que o salutar debate político mais se parece com brigas de torcida. O que mais chamou a atenção foi a tal da condução coercitiva de Lula, medida que recebeu críticas de vários segmentos por seu evidente exagero. O insuspeito ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal, classificou-a como um ato de força, que implica retrocesso e não avanço. Ele afirmou que não se pode atropelar a lei, pois isso só gera incerteza jurídica para todos os cidadãos e lembrou que só se conduz coercitivamente o cidadão que resiste e não comparece para depor, o que não foi o caso de Lula. O ex-ministro da Justiça e secretário de Direitos Humanos durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, José Gregori, também classificou a medida como um ?exagero?. Ele acrescentou desconhecer, na legislação brasileira, a figura da condução coercitiva sem que tenha havido antes a convocação?. Outro integrante do governo FHC, Walter Maierovitch, ex-secretário Nacional Antidrogas, também se manifestou contra o mandado de condução coercitiva. Maierovitch viu ?desvio de legalidade?. Não se pode negar que a Lava Jato tem dado uma grande contribuição para combater esquemas de corrupção que se instalaram há décadas nos negócios públicos. Além disso, ninguém está acima da lei, e isso inclui o ex-presidente Lula ou qualquer outra eminente figura dos meios políticos e empresários do País. Buscas e apreensões são atividades normais em investigação, mas mas não podem ultrapassar os limites da lei e do bom-senso.