Opinião
O NAVIGLI E O SALGADINHO
Quem vai a Milão e não resiste visitar o Bairro do Navigli, pode dizer que aproveitou o melhor da cidade. Na verdade fui em busca da Porta Ticinese, uma ruína medieval restaurada no século 19, em estilo Neoclássico que lembra os tempos em que Mediolanum era a capital do Império e terminei ficando encantado com o Navigli, um canal que corta boa parte da cidade, mas particularmente um bairro boêmio, de intensa vida noturna, cheio de galerias de arte, antiquários, bares e restaurantes, lojas de material de pintura, estúdios, ateliês e lojas de miniaturas. No meio do canal um barco que é um restaurante. No dia em que fui estava no leito seco. Aproveitei para olhar a construção das margens em pedra que não diferenciava muito do nosso Salgadinho, antigo Riacho Maceió, depois que foi desviado para a praia da avenida. A grande diferença era a limpeza que estava sendo feita no leito seco. Os encarregados desse trabalho usavam até vassouras para tirar qualquer fração de lixo encontrado. Não resisti e parei olhando aquelas pessoas e vi que outros como eu também faziam a mesma coisa. Foi quando me aproximei e perguntei como podiam limpar assim aquele canal? E a resposta foi que havia comportas que eram fechadas justamente para que pudesse haver esta limpeza. Achei tão interessante que perguntei qual teria sido o prefeito ou administrador que construiu obra tão interessante para a urbe milanesa? A resposta chegou a me deixar embaraçado a ponto de não perguntar mais nada. Aquilo era obra de Leonardo da Vinci. Depois descobri que se tratava de um sistema de canais de irrigação que ligava o Lago Maggiore ao lago de Como e chegava até as ruas da Suíça indo parar no Rio Po e, finalmente, no mar. E Da Vinci, realmente, tinha sido encarregado por Ludovico, O Mouro, de fazer algumas obras no Navigli. Não é demais dizer que a importância e o aproveitamento desse sistema de canais remontam do período romano. Voltei para a minha terra e ainda hoje quando passo pelo rio, divisor entre Maceió e Jaraguá, fico escandalizado com a sujeira, com o odor fétido, mais ainda com a razão de nenhum administrador do município de Maceió não ter investido para presentear a cidade com um canal navegável, limpo, que pudesse ser um cartão postal da cidade, sobretudo, pela extensão tão pequena, tão distante de um Navigli. Se em 1496 foi possível porque em pleno século 21 é tão difícil?