Opinião
CUIDADO COM O QUE VOC� QUER MUDAR
Começo o texto com um apelo: não tente mudar ninguém. Por mais sofrível que seja ver seu semelhante fazer coisas que lhe provoque, assuste e irrite, se você tiver algum poder para mudar a vida de alguém, não use! Nunca se sabe o estrago e o desrespeito com os segredos e com as dádivas do próximo que estamos cometendo. Aí vem a pergunta: mas você não é psicólogo clínico? A função de um psicólogo não é ajudar alguém a mudar aquilo que é nocivo em sua vida? Não. É pretensioso e cruel demais fazer isso. Porém, a crueldade, uma hora ou outra, acaba escapando pelos nossos dedos. Por isso é preciso estar sempre atento sobre como alimentamos nossos desejos. O outro não deve arcar com nossas responsabilidades. Ninguém deve aprender a gostar de algo que não gosta apenas para se encaixar onde não quer ser encaixado. Tampouco deve fazer trocas que sente que haverá danos na aceitação. Aprender é diferente de mudar. Quando aprendo, amplio meu horizonte. Quando mudo, eu apenas troco um lado pelo outro. O cuidado que peço com as mudanças é provindo da ânsia em querer melhorar o mais depressa possível, de que o que eu quero seja aceito e minhas vontades e fantasias sejam supridas. Mas a que custo? Qual imagem estou sacrificando para pôr outra dita ?melhor? no lugar? A nossa educação não é preparada para ampliar nada, e sim a dizer o que é certo e o que é errado, nos obrigando a separar o que deve e o que não deve. Todavia, uma pergunta ainda está sem resposta: se mudar algo em uma pessoa é pretensiosamente nocivo, então qual é a função do psicólogo? Respondo novamente de prontidão: a oposta da mudança. E que, sendo oposta, está ligada à mudança e pode proporcionar um tipo diferente de mudança à qual estamos discutindo. Esse oposto chama-se aceitação. Aceitar não é simplesmente deixar que tudo aconteça. Assim como estávamos falando do ?querer mudar?, o ?querer aceitar? também pode ser igualmente nocivo. Uma vez uma professora disse em aula: ?Quando você aceita, você muda?. Mas que tipo de aceitação é essa que pode gerar uma mudança, e não simplesmente eu aceito porque me foi recomendado aceitar? Eis que puxo novamente o início do texto: ter cuidado com nossos segredos, com nosso lado mais intocável, é o caminho verdadeiro da aceitação. Só posso aprender a aceitar quando eu admito que eu tenho uma parte que me é insuportável e que eu não faço a mínima ideia do que fazer com ela. Aceitar é confirmar a existência de algo em mim. E que agora eu não tenho mais escolha senão ver que aquilo que olho agora é aquilo que sou. É o momento que (realmente) estou em outro lugar, com outra dinâmica. Por isso, cuidado com as armadilhas no meio do caminho. Depreciar-se também é uma forma de não aceitação. Dizer ?eu sou idiota mesmo?, ?eu realmente não entendo isso? e afins pode muito bem ser o alimento de um Ego que quer continuar onde está, que quer entender tudo à sua maneira e que não aceita que não sabe, e sim que desiste antes de não saber. Sim, soa confuso. Como a aceitação.