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Frei Dami�o

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JOSÉ MEDEIROS * Estava no Recife por ocasião do lançamento do processo de beatificação do Frei Damião. Um momento muito especial aguardado ansiosamente pelos seus devotos. Além das solenidades de exaltação de sua vida e de suas ações, foi aberto e instaurado um ?Tribunal Eclesiástico?, que deverá ouvir testemunhas sobre acontecimentos e fatos do trabalho cristão desse capuchinho. Foram mais de 60 anos de seu ofício religioso dedicados ao nordeste brasileiro. Cabe ao Tribunal reunir documentos que possibilitem a continuidade do processo de beatificação e, posteriormente, de canonização desse frade missionário. - Exemplo de humanidade, dedicação às populações carentes e desapego aos bens materiais, Frei Damião era sinônimo de ?Santa Missão? (pregação religiosa para a qual afluíam milhares de fiéis). Transformou a ?Santa Missão? no interior do Nordeste no mais contrito ato de fé, acontecimento cíclico esperado pelos católicos. Em toda parte por onde andou era acompanhado com muita devoção e manifestações de sentimento religioso. Sua presença atraía multidões e a influência sobre a população tinha algo carismático. Italiano de origem transformou-se num autêntico nordestino, queimado pelo sol e crestado pelo calor da região. Absorveu muitas características de nossa gente. Conheci o franciscano na cidade de São Brás, às margens do Rio São Francisco. Estive sentado à mesma mesa onde tomou café. Ensaiei algumas perguntas para início de um diálogo. As respostas eram curtas, breves, monossilábicas. Entretanto, dele emanava estranho magnetismo. Muito paciente, passava 12 a 14 horas seguidas no confissionário e, mesmo assim, as filas não acabavam. Anos depois, o reencontrei em Anadia, onde recebi da então vereadora Marlene Pedrosa a incumbência de saudá-lo em nome da Câmara anadiense. O capuchinho recebeu o título de Cidadão Honorário da cidade. Cenário inesquecível: uma solenidade realizada no pátio da igreja matriz, numa tarde de festa da padroeira, com milhares de pessoas aglomeradas ao longo da praça central da cidade. Vibração e entusiasmo do povo. Passados alguns anos, uma senhora, minha conhecida, contou-me um extraordinário episódio familiar. Sua filha teve um câncer no fígado. Foi operada, mas os médicos não concluíram a cirurgia; fecharam o abdômen vez que o câncer estava disseminado em vários órgãos. As previsões eram sombrias. Amigos aconselharam levar a adolescente ao Frei Damião. Viajaram para encontrá-lo. Apresentaram-na e relataram a doença de que estava acometida. Ele olhou-a, demoradamente. Passou a mão na cabeça dela. Dias depois, começou um processo de lenta recuperação. A disposição foi voltando aos poucos. A palidez doentia se esvaiu, as cores voltaram à face. Já não parecia estar doente. A família, assombrada, ajoelhava-se e agradecia a Deus. Os vizinhos, enlevados, aconselhavam que ela voltasse ao médico para repetir os exames. Surpreendentemente ? para espanto do especialista ? as lesões haviam desaparecido. Tempos depois, aos 18 anos, casou-se e hoje é mãe de três filhos. Repito essa história como me foi contada. Muitos serão os depoimentos a serem ouvidos pelo ?Tribunal Eclesiástico?. Espera-se que o processo não dure centenas de anos como tem ocorrido em outros casos. Frei Damião foi, sem dúvida, uma figura extraordinária de seu tempo e de sua realidade. Marcou época, fez história. Sua morte biológica comoveu muita gente, mas continua vivo na crônica oral e na memória de todos aqueles que o conheceram. (*) É MÉDICO E EX-SECRETÁRIO DE EDUCAÇÃO E DE SAÚDE

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