Opinião
Lembrando Darcy
EDUARDO BOMFIM q Segunda-feira completam-se seis anos da morte de Darcy Ribeiro. Sem dúvida alguma foi um dos maiores intelectuais do Brasil contemporâneo. No fim da vida, vitimado pelo câncer, homenageado pela universidade de Sorbonne, em Paris, declarou: ?Vivi sempre pregando e lutando, como um cruzado, pelas causas que me comovem... Na verdade, somei mais fracassos que vitórias em minhas lutas, mas isto não importa. Horrível seria ter ficado ao lado dos que nos venceram nessas batalhas?. Militante político, polêmico, intelectual orgânico, exilado, visionário, revolucionário, antropólogo, educador, ministro de Estado, Darcy era a paixão em vida e um obcecado pelas causas transformadoras. Escreveu, entre outros, ?O Povo Brasileiro?, uma das obras fundamentais para se compreender o nosso País. Inimigo declarado do pensamento esquemático, dogmático, foi original até mesmo quando equivocado, descortinando as particularidades da cultura e realidade nacionais. Ao refletir sobre a rica trajetória deste homem, percebi que me debruçava sobre o Brasil atual. Diria, de forma mais precisa, acerca da esquerda e da intelectualidade progressista em geral. Tão rica em generosidade, ao ponto de centenas e centenas de vidas terem sido sacrificadas por um Brasil melhor e mais justo. Também é verdade que esta mesma esquerda carece de um pensamento mais rico, mais elaborado sobre o seu próprio povo e nação. Dir-se-ia que este é um processo dialético, de crescimento do próprio conhecimento e ação. E eu concordo. Tanto é assim que em momentos estratégicos da vida nacional, estivemos alguns passos atrasados. Como na revolução de 1930, que mudou substancialmente a face do País, nos episódios que culminaram com o suicídio de Getúlio Vargas ao deparar-se com forças reacionárias e de caráter antinacional, restando-lhe unicamente o sacrifício supremo da própria vida para impedir a vitória dos adversários de uma vereda nacional independente. Mais adiante, o nosso fôlego foi insuficiente para compreendermos a profundidade e intensidade das reformas de base propostas pelo governo de João Goulart, imerso em contradições, é verdade; ancorado em um contexto internacional dramático de guerra fria, combinado com a reação furibunda, implacável, dos segmentos conservadores brasileiros, desembocando no golpe de 1964, que durou 22 anos. Uma esquerda que vivia, à época, presa a uma falsa dualidade entre reforma ou ruptura, como que se os contextos históricos ao negar um afirmassem o outro e vice-versa. Na verdade, tanto uma como a outra são fases de um mesmo processo de abordagem da libertação nacional e social de qualquer povo. Cada um ao seu momento e circunstância. Uma esquerda brilhante, dadivosa, generosa, mas ainda aquém das exigências e complexidades do caminho original da revolução brasileira. Não há vergonha em se constatar este fato. Pelo contrário, é imperioso o diagnóstico. Darcy e tantos outros perceberam esta insuficiência, esta indigência em nossa formulação teórica, em nossa estratégia. Tanto que 40 anos após o último governo progressista nacional, deposto pela direita e pelo imperialismo norte-americano, e a eleição esmagadora de Lula em outubro passado, esta mesma esquerda debate-se atônita com a própria vitória, porque destaca-se a ausência de um projeto nacional alternativo aos interesses do capital financeiro internacional e ao imperialismo, hoje mais poderoso e incontestavelmente hegemônico. Uma situação penosa, provocando aqui o delírio mais esquerdista, ali o imobilismo enervante, acolá o corporativismo falsamente politizado; facilitando deliciosamente os movimentos das forças derrotadas, representantes do atraso que vai manobrando com estas contradições, procurando nos impingir, mais uma vez, contundente derrota de caráter histórico e de enormes conseqüências. Há que se combinar ousadia e prudência e, acima de tudo, o esforço monumental de descortinar o presente com a lucidez que o momento exige. (q) É ADVOGADO