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FLORES EM VIDA

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Relembra-se, em 2016, os 30 anos de morte de Nelson Cavaquinho, compositor carioca que criou algumas das joias da música popular brasileira. São de sua autoria, por exemplo, ?Juízo final?, ?A flor e o espinho? e ?Quando eu me chamar saudade?, obras-primas que continuam encantando gerações nos dias de hoje. Nessa última, há os versos que sempre me fazem meditar: ?Mas depois que o tempo passar, sei que ninguém vai se lembrar que eu fui embora; por isso é que eu penso assim: se alguém quiser fazer por mim, que faça agora. Me dê as flores em vida, o carinho, a mão amiga para aliviar meus ais; depois que eu me chamar saudade, não preciso de vaidade, quero prece e nada mais?. Grande verdade, a contida nessa letra extraordinária. Temos a triste mania de reconhecer os méritos das pessoas somente depois que elas vão-se embora, como se a morte, ao invés da foice, carregasse uma varinha mágica que transforma todos em santos de uma hora para outra. Gente que vivia esquecida, às vezes, até mesmo pelos próprios parentes, ao encerrar a sua jornada terrena tem exaltadas em prosa e verso as suas qualidades, os seus feitos públicos ou privados, seu exemplo disso e daquilo. Ainda ontem ninguém se lembrava mais da sua existência, nem mesmo um telefonema ligeiro interrompia as suas intermináveis horas de solidão e de tédio, e basta o seu anúncio fúnebre ser publicado que logo pipocam elogios de toda ordem, alguns mal disfarçando a hipocrisia de que se revestem. Quando ainda podiam se emocionar com um gesto de gratidão que lhe fosse devotado, receberam apenas a indiferença. Penso como o mangueirense ilustre, e tento fazer agora, pelos que me são caros, tudo o que me manda o coração. Não quero chorar diante de uma lápide fria as oportunidades desperdiçadas nem lamentar o que não se disse nem se viveu. A vida é muito curta para ser pequena, li em algum canto tempos atrás. Precisamos ser perdulários do carinho, gastar sem nenhuma economia a nossa quota de beijos, abraços e frases amorosas. Afeto não combina com avareza. A felicidade está ao alcance das nossas mãos, embora às vezes nós não a enxerguemos; basta termos a iniciativa de esticar o braço. Há um pedaço enorme da vida nas pequenas dobras do cotidiano, naquilo que, de tão comum, costuma passar despercebido aos nossos olhos, e que geralmente só nos faz falta quando já não está mais ali, dando-nos então a dimensão exata da sua grande importância. Mas aí já é tarde demais, para desalento de quem não soube aproveitar as chances que lhe foram ofertadas.

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