Opinião
MOLITERNO
Há ausências vitalícias que nos incomodam muito e com as quais nunca nos conformamos. Ainda ontem o sujeito estava por aqui, em nosso derredor, e a Indesejada vem buscá-lo de inopino, fazendo pouco caso do nosso afeto e abrindo um vácuo impreenchível no rol dos que nos são caros. Tinha razão Sidney Wanderley quando versejou: ?Certas coisas não merecem a crueldade do existir, para que delas não se diga algum dia: conheceram o trevoso sabor da finitude?. Carlos Moliterno é uma dessas faltas tocantes. Vejo-o de novo caminhando no calçadão da Rua do Comércio, passos lentos e os poucos cabelos assanhados pelo vento, chegando à Academia Alagoana de Letras. Vez por outra virava a cabeça para acompanhar o rebolado de uma bela mulher, ele que viveu permanentemente inspirado e exercitando o dom da sedução, no melhor sentido dessa palavra. A primeira vez que falei com ele, em seu gabinete de trabalho, eu ainda era estudante secundarista no velho Colégio Guido de Fontgalland. Levava debaixo do braço a sua biografia escrita por Arriete Vilela, que me fora presenteada pelo padre Teófanes de Barros, e fui recebido afavelmente, ele com aquele sorriso discreto que escapava dos lábios semicerrados e a voz rouca que logo me disse: ?A autora é boa, meu filho, mas o biografado não vale nada?. Nunca mais deixei de frequentar aquele espaço abarrotado de livros e de papéis, nem de me encantar com o seu presidente septuagenário que guardava na alma a capacidade de sonhar própria dos que nunca envelhecem por dentro. ?Um dia você entra na Academia, menino?, disse-me ele diversas vezes. Quando fui empossado como membro da Casa de Demócrito, em 2003, Moliterno já havia feito a grande viagem; mas acho mesmo que o mestre Carlinhos estava ali, no salão nobre lotado, ao lado da sua Anilda, vibrando com a minha chegada à casa que também era sua, mais do que de qualquer outra pessoa. Alguém disse ? terá sido Luiz Nogueira Barros? ? que ele fora ?nunca mole, mas sempre terno?. Um belo neologismo. Por trás daquela fisionomia séria e da disposição para uma boa briga havia antes de tudo o poeta em tempo integral, o homem sensível, o proseador cativante que prendia a atenção de qualquer interlocutor. Possuo dele um exemplar de ?A Ilha?, autografado para mim com sua letra expressiva e bonita. O meu nome escrito à mão e a assinatura do autor, bem legível, são para mim uma lembrança caríssima. O velho e o quase menino, que bem podia ser seu neto, estão ali para sempre juntos, imunes à passagem do tempo, na comunhão da poesia.