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Opinião

Manique�smo e intoler�ncia

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Não é preciso se esforçar muito para perceber que o Brasil vive atualmente dias de ânimos acirrados. Desde os protestos de junho de 2013 ? motivados pelos aumentos das passagens do transporte coletivo ?, as manifestações atuais que carregam a bandeira anticorrupção sofrem uma polarização perigosa. O debate político foi substituído por um discurso de forte conteúdo emocional, que impossibilita o diálogo. De repente, o País se vê dividido em coxinhas ? gíria que designa pessoas com tendências políticas e morais conservadoras ? e petralhas, aqueles que apoiam o atual governo e, por extensão, têm um pensamento esquerdista. A disputa política ficou, então, reduzida a uma briga de torcidas, a um FLA X FLU sem sentido. Hoje, o símbolo da impossibilidade do diálogo está no panelaço, no enfrentamento nas ruas, no achincalhe público. Não se trata mais de defender uma causa, mas de jogar lama sobre o outro. A situação é mais tensa no mundo virtual. Se, por um lado, as redes sociais são um fator de mobilização política enorme, por outro têm como aspecto negativo a simplificação do debate político. O compartilhamento de informações é superficial e muito rápido. É um debate infantilizado. Ninguém quer perder tempo em checar se determinada informação é verídica, se é de fonte confiável ou se se trata de mera especulação. É bem mais cômodo clicar no botão ?compartilhar?, mesmo que se trate de uma informação claramente absurda ou fantasiosa. As redes sociais se transformaram num campo de batalha aberto. Contra aqueles que pensam diferente, parece valer tudo: insultar, xingar, caluniar, sem o menor pejo. Basta qualquer manifestação de pensamento para que as brigas comecem e se estendam. Até mesmo declarações sem cunho político-partidário podem gerar reações desmedidas. O mais grave é que a sociedade parece não se dar conta de que, enquanto o povo se divide nessa guerra de ódio, estruturas políticas que atrasam o País continuam intactas. É preciso superar esse maniqueísmo e parar o discurso que alimenta esse ódio. Nesse terreno minado pela raiva e pela ignorância, a autocrítica ? algo fundamental ? é a primeira vítima. A corrupção no País é um mal que precisa ser debatido de uma forma um pouco mais séria e profunda.

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