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Sina ou castigo?

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RONALD MENDONÇA * Apesar de inesperada, a fala preconceituosa contra os nordestinos, de José Graziano, o ?ministro da Fome? de Lula, não surpreende. Queira-se ou não, há uma poderosa rede de crescente antipatia aos nordestinos, claro que muito mais com os mais pobres, mas nem os de nível universitário estão fora. É comum no meio médico, por exemplo, as missões mais desagradáveis destinarem-se aos ?baianos?. Não é de agora que nordestino para ser reconhecido em São Paulo tem que matar um leão por dia. Os detalhes em relação àqueles que ?querem mais é distância dos nordestinos? é que o movimento é suprapartidário e nele estão abrigados de Maluf a Graziano, passando, evidentemente, pelo ascético Serra. De qualquer forma, foi bom saber o que pensa um ministro da fome sobre as pessoas que ele pretende alimentar. Aliás, são nesses momentos de incontinência verbal que a sinceridade costuma emergir. Quem não lembra dos rompantes e das piadinhas de gosto duvidoso do general Figueiredo e, mais recentemente, de FHC? (?Aposentado é malandro?). Contudo, posso estar sendo ingênuo, mas é possível que Graziano tenha exagerado na argumentação apenas para ter um acesso mais fácil aos cofres do forte grupo de industriais paulistas. Deus me livre de pensar que ele teve a real intenção de dizer: ?Olha gente, é muito importante aquele povo comer 3 vezes por dia. Pelo menos, enquanto se distrai comendo, não está nem roubando nem planejando vir para cá?. Mas nordestino não precisa ir para São Paulo para ser escorraçado. Isso é o que quer provar a autobiografia do advogado José Moura Rocha, lançada esta semana no aconchegante Ponto Central, livraria e café na Ponta Verde. Vale a pena conferir a trajetória de Moura Rocha nesses 70 anos. Menino de interior de modestos recursos, atingido precocemente pela orfandade, Moura, nome que grudou na história política recente de Alagoas, pôs boa parte das suas mágoas e ressentimentos ? mas, também, muitas alegrias e conquistas ? sob o, se não enigmático, ao menos exótico, título ?Os ricos não tugem e os pobres não mugem?. Hoje, ?remediado?, com ele se intitula, dá um chutão no pau da barraca e paga pra ver. Exposto de forma didática e apaixona da, seguindo uma cronologia, o opúsculo ? salvo os jogos amorosos com as filhas dos moradores e a morte trágica da cadela-companheira sob as rodas do automóvel do usineiro ?, põe o dedo em conhecidas feridas da província que nos constrangem a todos. Apesar do espírito crítico e denunciador, a obra é sobretudo catártica para o autor, além de esclarecedora e pedagógica para a atual e futura gerações. Polêmico, ?Os ricos...? vão dar o que falar. Inauguro, discordando dos comentários hiperbólicos de ?desalinho e promiscuidade dessas hospedarias de loucos?, ao referir-se à casa de saúde que o recebeu ?ele sim ? como amigo e hóspede ilustre. Nada, contudo, que umas doses de uísque não resolvam. (*) MÉDICO E PROFESSOR DA UFAL

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