Opinião
PRENOMES E TAIS
Há nomes que sujeitam os seus donos involuntários a um martírio que se arrasta por toda a vida, desde a gozação intermitente dos colegas de escola até a necessidade de repeti-los, sílaba por sílaba, a cada vez que se vai tirar um documento ou preencher um formulário qualquer. Balzac chegou a afirmar, com certo exagero, que o destino de um homem pode ser traçado pelo seu nome de batismo, numa consagração ou num opróbrio eternos. Tenho amigos que possuem nomes pouco comuns, mas nem por isso enxergam aí qualquer problema. Élcio e Josmara, por exemplo, resultam da junção das iniciais do pai e da mãe, Leonam é o prenome do pai escrito ao contrário, Claudeneuza é uma homenagem prestada à avó querida. Alguns, por acharem o próprio nome comprido ou sério demais, adotam apelidos com os quais são para sempre conhecidos, e assim Ildefonso vira Tito, Pretestata se torna Iaiá, Aristides se transforma em Bilú. Outros, ainda, valem-se de pseudônimos, de modo que Anfilófio passa a ser Jayme, Zilma passa a ser Bebé, Wilma passa a ser Aristolina, José Cícero passa a ser Maninho. Na rua da minha infância, ninguém sabia que o nome verdadeiro de seu Horácio da venda era Antônio, nem que dona Nita, sua amável esposa, chamava-se Amélia. Dominguinho, meu companheiro de meninice, nunca foi chamado de Alberto, nem mesmo por seus pais e irmãos. Para essas pessoas, o nome oficial ficou restrito à sua certidão de nascimento, esquecido na burocracia cartorária, coisa sem importância nem serventia alguma. Alguns serão para sempre Liu, Tatá, Dedé, Nenem, Cacá. O velho Raphael de Aguiar, poeta e farmacêutico em Murici, valia-se sempre das mesmas iniciais para registrar os seus filhos: Cleovansóstenes, Cleômenes, Clêstenes, Cleóbulo, Cleane. Assim também fazia seu Euclides Navarro, pé de valsa de Matriz de Camaragibe, pai de Edmilson, Edjalmer, Edjanil, Edvanil e Edmundo. Um professor meu, de física, chamava-se Strauss e era irmão de Beethoven, evidência inconteste do quanto o seu genitor apreciava a boa música clássica, apesar de ambos não comporem nada. O fato é que carregamos pela vida afora o nome que nos deram, seja ele um fardo ou uma bênção. Às vezes os genitores são especialmente cruéis, condenando os filhos a toda sorte de brincadeiras e provocações; nunca compreendi o que se passa na cabeça de quem batiza um rebento, no Brasil, com o nome de Al Capone, Michael Jackson ou Bruce Lee. Melhor ser Epaminondas, Beclaute ou Epifânio, se não puder ser Pedro, João ou Maria ? esses sim, atemporais e sempre bem postos.