Opinião
SOBRE A CRISE DE VALORES NA POL�TICA
Muitas vezes tenho falado da perda dos valores na nossa sociedade, que caminha em proporção direta com a perda do sentido de Deus, último e inapelável referencial moral da humanidade. No nosso País, este deficit moral se manifesta na pobreza crônica e institucionalizada, na violência, no consumo de entorpecentes, na destruição da família, no hedonismo, no desregramento e excessos sexuais com ares de normalidade e humanismo etc. Há, no entanto, uma manifestação, um sintoma dessa perda que indigna de modo mais forte e gritante: trata-se da corrupção dos nossos dirigentes e da classe política como um todo. A sensação que temos é que nossos governantes perderam de vez o pudor. Criou-se uma convicção de que os governantes estão acima da lei. Lei foi feita para o povo e esses senhores não são povo: estão acima dele como o céu está acima da terra. Sempre há exceções, poucas, é verdade, mas a percepção geral é a de que os políticos ingressam na vida pública para proveito e benefício próprios. Não há consciência cívica, não há preocupação real e profunda em relação ao povo, sobretudo em relação aos pobres. Assim, assistimos a um crescente que parece inesgotável na prática da corrupção, agora como nunca de modo despudorado. A única instância que poderia exigir de modo definitivo que nossos políticos servissem ao povo e não se servissem dele seria o próprio povo. Mas este, anêmico de critérios morais, absolve culpados, esquece velhas corrupções e reelege sujeitos de corrupção ativa, passiva e inativa. Cria-se um círculo vicioso perigosíssimo: um povo que padece de pobreza de critérios morais gera políticos imorais, que tranquilamente corrompem e se deixam corromper porque sabem que serão reeleitos por cidadãos que já não cobram de seus líderes um alto padrão moral. O fato é que, pouco a pouco, acompanhamos entre desiludidos e indignados a degradação moral de nossas lideranças. E, infelizmente, tal indignação e desilusão não se traduzem em derrota eleitoral para os corruptos, porque quando chega o momento do voto o pobre se vende por uma dentadura e o rico por um emprego sem trabalhar ou outro cambalacho de ocasião... A questão é que essa corrupção vai provocando três misérias: (1) A espoliação do bem comum, já que projetos na área de saúde, educação, saneamento básico, transporte e outros tantos, essenciais para uma boa infraestrutura do nosso País, vão sendo transcurados. A corrupção política tem como salário a fome e a miséria dos pobres. (2) O desencanto com as instituições: muitos brasileiros já não acreditam na democracia. (3) O desestímulo a que surjam lideranças políticas realmente sadias e comprometidas com o bem comum, já que as pessoas de bem evitam ingressar numa política que se tornou antro de bandidagem. Qual o remédio para isso? A capacidade de indignar-se, de denunciar, de cobrar; a mobilização da opinião pública, a insistência em dizer que tudo isso pode ser diferente... E, sobretudo, a convicção de que o voto pode ser expressão e instrumento do desejo de mudança e de sua efetivação. No caso daquele que é cristão, tudo isto fica ainda mais patente quando nos confrontamos com o Evangelho, que é verdade, justiça, retidão, amor solidário e paz. Um cristão não pode se portar na política como se o Evangelho não existisse e aquele que ilumina sua vida com o Evangelho não pode fazer de conta que a política não precisa da luz de Cristo. Em outras palavras: nossa fidelidade a Cristo nos impede que nos conformemos com o mal e nos impulsiona a procurar meios de uma sociedade melhor e de dirigentes mais dignos. Religião não é ópio, é força transformadora e libertadora.