Opinião
O LEITE E A VIDA
Contingenciamento. Uma palavra solene, revestida de responsabilidades para economistas e técnicos, mas aterrorizante para setores fundamentais da sociedade brasileira. Embasado em decretos, o governo federal contingencia, ou seja, corta a aplicação de recursos, e usa critérios inextrincáveis para isso. O resultado é que áreas essenciais acabam sendo atingidas, como está ocorrendo agora em Alagoas com o programa do Leite. Na segunda-feira, atendendo ao convite da Cooperativa dos Produtores de Leite de Alagoas, participamos de uma reunião com representantes da agricultura familiar do Estado, além de deputados federais, estaduais e vereadores de Maceió. Tivemos conhecimento de uma realidade dramática vivida por milhares de famílias alagoanas. O governo federal resolveu contingenciar o Programa de Distribuição do Leite reduzindo o orçamento de R$ 28 milhões para R$ 19 milhões afetando as vidas de 80 mil grupos familiares. Além do aspecto de atenção básica à saúde, são muitas as vantagens que o programa traz para a economia do Estado. Ao todo, 1.595 produtores locais têm mercado garantido e preço justo para comercializar o produto. Eles destinam a produção para 16 laticínios responsáveis pela industrialização, pasteurização e empacotamento do leite e entrega nos pontos de distribuição, com isso são gerados centenas de empregos diretos e indiretos. Muitos alagoanos têm nesse programa uma fonte de alimentação, é algo que não pode ser negligenciado. Sei disso porque quando fui prefeito de Maceió criei um programa embrionário de distribuição de leite. O êxito da investida motivou a implantação em nível estadual quando fui eleito governador. Os governos subsequentes deram continuidade, e até há pouco tudo ia bem, mas a crise tem levado o governo federal a tomar medidas polêmicas, quando não injustas, no caso específico, obtusas, para acertar suas contas. Para o leite chegar nas casas das famílias necessitadas, uma cadeia de produção é estabelecida, desde o agricultor que planta o capim que alimenta o gado até o motorista que distribui o produto. O leite ameniza a fome, garante a merenda escolar e permite que crianças cresçam com boa saúde. Quebrar essa cadeia agora é demonstrar falta de planejamento e desapego com os programas sociais. Não podemos permitir que isso ocorra. Não se trata de uma planilha de custos, mas sim de vidas.