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Opinião

A DOR DO QUE N�O FOI

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Diante do corpo inerte do seu pai, Eurílio relembrava em silêncio o que não fora vivido por ambos, o quanto de cumplicidade que deixara de existir nos descaminhos da vida. Na solidão daquela hora, parecia-lhe estar frente a um estranho, eis que quase nada havia para se lembrar da convivência superficial que tivera com aquele homem por quem nutria tanta admiração, mas a quem conhecia tão pouco. Entre as condolências de um e outro amigo, era como se os depoimentos se referissem a uma pessoa distante, muito distante, feita ausente mesmo quando ainda em vida estava. Nunca sentira os lábios do velho a lhe tocarem a face, nunca se percebera acolhido entre os seus braços vigorosos, nunca notara um olhar de aprovação dirigido a sua pessoa, mesmo quando mais havia precisado dessas migalhas de ternura para manter um mínimo de sanidade e de equilíbrio. Eurílio não divisava ao certo quando se estabelecera o imenso abismo entre ele e o pai, um fosso profundo que só fez aumentar com o correr dos anos, até que ambos já não mais se lembrassem de quem fora o outro algum dia. Músicas preferidas, pratos prediletos, autores admirados, lazer, paixões, crenças e temores ? um nada sabia sobre o outro, e foram caminhando assim pela vida afora, há muitas décadas, como desconhecidos que moravam na mesma cidade sem manter entre si contato algum. Quando se encontravam ocasionalmente, em raros eventos sociais e em ainda mais raras obrigações familiares, mal se cumprimentavam e nunca trocavam mais do que meia dúzia de palavras superficiais, comentando o noticiário político do dia ou alguma notícia sem maior importância; de si mesmos nunca falavam, absolutamente alheios ao que se passava em seus corações. Eram pai e filho somente pela circunstância genética, nada além. Nenhum afeto restara da cinza das horas passadas em vão. Daí a desolação de Eurílio naquele velório, ao sentir a dor dos momentos que não foram partilhados, dos abraços que jamais foram trocados, dos beijos que nunca foram dados. Nada mais a fazer, tempo irremediavelmente perdido, para sempre desperdiçado. Lembrou-se do refrão da música brega que ouvia, quando criança, no barzinho do interior: ?Mas é melhor querer e depois perder/ que nunca ter amado?. Estava perdendo ? seria possível? ? o que nunca possuíra, despedindo-se do que nunca fora seu. A urna funerária abrigava uma esfinge de carne e osso, um enigma eternamente indecifrado. E era triste, profundamente triste, de uma tristeza que seria para sempre de Eurílio, somente sua.

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