Opinião
A CASA ETERNA
Um chão sagrado para mim, em Murici, é o da casa em que morei durante a minha infância, na antiga rua 7 de Setembro, hoje rua Izarele de Souza Santos, justíssima homenagem da Câmara de Vereadores à memória da minha avó materna, que ali também nasceu, viveu e exerceu o seu apostolado de bondade cristã. A construção original foi edificada por meu bisavô, José Lino de Souza, no final do século XIX, e ali ele criou os seus nove filhos, deixando-a como herança, após a sua morte, para a filha caçula, que viria a ser mãe da minha mãe. Dona Lenira cresceu entre aquelas paredes, as mesmas que emolduraram os meus primeiros passos e ouviram as primeiras palavras que eu falei. Mauro Mota escreveu que ?ninguém se muda jamais do domicílio da infância. A gente sai, mas leva, pelo resto da vida, os trastes na cabeça e no coração. A casa inverte a missão domiciliar, sai da rua; a casa agora mora no seu antigo habitante?. Comigo também se deu assim. Quando eu vim estudar em Maceió, em 1985, trouxe a velha casa comigo, tal como ela fora na década de 70, com as suas portas de madeira com ferrolho e com tramela, a sua cerâmica desgastada pelo tempo, o seu telhado sem forro com os caibros e ripas à vista e onde, altas horas, o caminhar apressado dos cassacos atrapalhava o meu sono instável com lembranças de malassombros e aparições. Muitas vezes, já morando na capital, percorri em sonho o seu corredor comprido, entrei no quarto cheirando ao perfume Seiva de Alfazema que a minha avó usava e me deitei na cama guarnecida com o cortinado, buscando a colcha de retalhos coloridos que me aquecia nas noites chuvosas de inverno. ?A casa ainda está lá,/mas é só pedra?, disse eu sobre ela num dos meus poemas. Entre uma cheia e outra do Mundaú, meu pai foi fazendo reformas necessárias que descaracterizaram profundamente a casa da minha infância. Restou apenas a mesa de jantar, a velha mesa de fórmica branca em torno da qual tantas vezes nós nos reunimos na minha meninice, recebendo amigos e parentes e celebrando a vida. Não há mais o sótão, a pilha de tralhas sem uso, o fogão a lenha no quintal. Hoje a casa é uma construção bonita, moderna, imponente, refeita para resistir à fúria do rio. Mas quando eu entro lá e fecho os olhos, o que eu vejo é a mesma casinha de ontem, sem nenhum luxo ou bom gosto estético, onde, entretanto, escorria, espumoso, o leite gordo da ternura humana. E é ela que eu carrego comigo, qual caracol, pra cima e pra baixo, aonde quer que eu vá.