Opinião
RELEMBRAN�AS
Meu xará Diógenes Moura, escritor pernambucano, poetizou que ?o presente são reminiscências do eterno vivendo?. É uma bela frase. De fato, vivemos no hoje também ? e talvez principalmente ? aquilo que trouxemos do ontem, e que insiste em não morrer na nossa recordação e no nosso afeto. Rostos, lugares, sabores e sons que jamais se afastam do nosso coração, grudados a nossa alma qual tatuagem permanente. Por isso é tão triste a vida de quem não tem o que recordar, dos que não possuem nada para ser rememorado com emoção. ?Uma pessoa sem memória não existe. Esquecer é matar? ? a sentença de Luzilá Gonçalves Ferreira, embora dura, é verdadeira. Quanto mais passa o tempo, e quanto mais célere se torna essa sua passagem, mais nos vamos dando conta de quanta coisa boa aconteceu nas dobras do nosso caminhar. Basta, às vezes, uma só palavra, e tudo como que renasce dentro do nosso peito, trazendo às nossas narinas aquele cheirinho de passado sem traça nem poeira, fazendo crescer em importância detalhes que, de tão corriqueiros, no ontem nem nos chamavam tanto a atenção. Uma xícara de asa quebrada, um bule com o bico amassado, uma panela sem cabo, uma pucumã perdida na cumeeira da sala. As ruas pelas quais andamos, salpicadas das nossas vivências e dos nossos assombros, guardam consigo a memória do que éramos naqueles tempos idos. O brinquedo da infância, uma vez reencontrado, traz à tona a nossa capacidade de nos contentarmos com o simples, de enxergarmos grandeza nas miudezas diárias. Quanto daquilo ainda remanesce em nós, incólume aos golpes solertes do destino? Nem sempre somos capazes de responder, mas sentimos o que fala bem alto ao nosso coração. Anco Márcio, Tenório como eu, afirmou: ?Perdemo-nos em lembranças que, ao fim e ao cabo, são apenas imagens que ficaram no lugar das coisas, das experiências, daquilo que vivemos e sentimos um dia?. Os idosos da minha Murici repetiam a frase antiga: ?Não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe?. As coisas passam, é bem verdade. É igualmente verdadeiro, entretanto, também o fato de que muitas delas não passam definitivamente, já que permanecem para sempre nas nossas retinas fatigadas. Em muitos finais de tarde eu flagrei meu avô Zezinho Fogueteiro, já cego, deitado em sua espreguiçadeira, coçando o dedão do pé e com um sorriso maroto escapando por entre os seus lábios finos. Quando eu lhe indagava o porquê daquela viagem feita em pensamento, a sua resposta era enigmática: ?Muita lembrança, seu Dioginho; muita lembrança...?.