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Opinião

ARTE E AFETO

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Possuo em casa uma pequena coleção de obras de arte, formada ao longo da minha vida adulta, cujo fio condutor é o fato de terem sido criadas por pintores, escultores, desenhistas e fotógrafos amigos meus. Além da sua própria beleza plástica e estética, tornam-se ainda mais importantes por guardarem a inspiração e o talento de pessoas que conheço, com as quais convivo e por quem nutro admiração e estima. Gosto de tê-las ao alcance dos meus olhos, espalhadas nas paredes e móveis de todos os cômodos, perpetuando um pouco dos seus prezados autores. Iniciei-a com uma tela do saudoso Gaspar Luiz, três rostos coloridos que sempre me relembram a sua vivacidade intelectual. Depois foram vindo outros, e mais outros, compondo enfim uma miscelânea que faz muito bem ao meu espírito. Uns são amadores, como minha mãe Lenira, minha madrinha Moyza e minha sogra Ana, mas ainda assim conseguem levar à tela a sua visão particular do mundo. Carlos Méro presenteou-me com a pintura de um dorso feminino, tal como o fez também Reinaldo Lessa, doando-me uma escultura sensual e provocante. De Dênis Matos possuo uma mulher de longos cabelos negros, de Pedro Cabral uma alegre burrinha de carnaval, de Lula Nogueira uma jangada que singra as águas da Lagoa Mundaú, de Hércules Mendes um personagem de guerreiro, de Pierre Chalita umas figuras nervosas envoltas em nuvens e mistérios. Fernando Bismarck está presente com seus homens esguios, negros e sem rosto, Rosivaldo Reis com uma de suas bicicletas, e meu cunhado Paulo de Tarso com os seus quadros grandes e expressivos, especialmente uma face de velho que me toca profundamente a alma. De Leda Almeida e Tony Admond, possuo lindas fotografias em preto e branco. De Hilda Moura, musa do poeta Sidney Wanderley, toda uma família em argila, trabalho delicado e sutil. Adriana Jardim retratou, em papel machê, uma avó e seu neto, réplica fiel de mim mesmo agarrado à saia de dona Izarele. Liciére Leão está presente no busto de uma senhora que me lembra as velhinhas de Murici, Mônica Torres num Coração de Jesus leve e ingênuo, Rogério Gomes numa de suas geometrias instigantes. Dija, de Arapiraca, pintou retratos do Luís e da Mara, e Dydha Lyra desenhou o meu rosto em bico-de-pena. E uma escultura em madeira do mestre Lourenço Peixoto, trazida da casa dos meus pais. Os meus amigos artistas fazem com que eu mergulhe dentro de mim mesmo e ouça a minha voz interior; sou-lhes gratíssimo por me propiciarem empreender essa viagem maravilhosa e tão enriquecedora.

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