Opinião
COMO � CRUEL CANTAR ASSIM
Um dos mais longevos cantores, Cauby Peixoto há muito havia perdido a condição física de ?soltar-se? nos palcos. Provavelmente portador de alguma neuropatia periférica, deixara de fazer o mise-en-scéne que era uma de suas marcas registradas. Cantava sentado. Entrava no palco apoiado por um auxiliar. Tinha estilo inconfundível, talvez baseado em Maurice Chevalier, o grande chansonier francês, e Liza Minelli. O seu figurino era comentado entre as mulheres (e também entre os homens). Apesar da decadência física, a voz continuou bem postada, indo dos agudos aos graves sem perder o tom. Aliás, era imitado por milhares de ?caubyzinhos? espalhados pelo País inteiro. Até onde me lembro, deslanchou de vez ao criar ?Conceição?, seu carro-chefe. Ouvi comentários dando conta de que Frank Sinatra considerava ?New York?, interpretada por Cauby, uma das melhores que ele (Sinatra) tinha ouvido. Um dos seus últimos grande shows de Cauby Peixoto foi no Teatro Santa Isabel, no Recife. Não assisti, mas José Mozart Cintra, um caubifílico de carteirinha, brindou-me com o DVD do espetáculo. Aqui em Maceió, ele tinha vários amigos com que fazia serenatas que marcaram época. Por pura gentileza, Cauby achava que todo mundo em Maceió era afinado, inclusive eu. Na foto, no Restaurante Mainá, CP percebeu, enquanto cantava ?La Vie en Rose?, que eu, sentado na primeira fila das mesas, acompanhava. Não teve dúvidas em colocar o microfone e deixou que eu assassinasse a bela canção. Quando ele terminou o número, confessou-se impressionado com o público brasileiro: ?Sabia cantar até em francês?. O tempo da Jovem Guarda trouxe um significativo declínio para os intérpretes que tinham vozes abaritonadas: Nelson Gonçalves, Cauby Peixoto, Orlando Silva, Roberto Luna, Sílvio Caldas, Aguinaldo Rayol, Jamelão e tantos outros. Luiz Gonzaga, nessa época, amargou verdadeiro exílio dentro do próprio País. Foram os baianos da Tropicália, com suas vestes esquisitas e piolhentos cabelos, que voltaram a compor para esse pessoal. Chico Buarque, em fase de grande inspiração, ajudaria a compor ?Gente Humilde?, ?Valsinha? e mais uma dezena de boas músicas. Algumas dessas cantadas por Elis Regina, como ?Porta Aberta?. Neste ensaio, não quero esquecer Gonzaguinha com seu ?Explode Coração?. Paulino da Viola nunca deixou o samba morrer. São antológicos os versos: ?Olá, como vai? Eu vou indo e você, tudo bem??. Paulo Vanzolim, um desconhecido biólogo da USP, compôs ?Ronda?, redescoberto por Betânia e outros seresteiros. Até o irreverente Cazuza contribuiria com o repertório. Caetano resgatou Lupicínio Rodrigues, que andava um pouco esquecido. Logo estourou ?Matriz ou Filial?, de Jardel. Mais recentemente, CV gravou ?Só?, de Peninha, cantado à exaustão por Tim Maia, Sandra de Sá, entre tantos, em todo barzinho que se prezasse. E o grande Cauby sobreviveu a todas as tempestades. Todos sabiam que, se quisessem ouvir boa música, podiam ir sem medo a uma das transversais da Praça da República, que lá encontraria Cauby Peixoto em excelente forma. Pessoas do quilate de Cauby Peixoto não morrem nunca. Chico Alves morreu em 1952, digo a vocês, eu ponho seus discos na vitrola e me delicio. Assim será com Cauby: eles apenas dormem o merecido sono eterno.